Viagem III: de volta a Paris

Assim, depois de uns dias em Tavira, voltei para Paris. De novo sozinha, sem fazer amizades na fila, dessa vez, mas pelo menos eles falavam em português.

No dia em que cheguei fomos a um show do John Pizzarelli. Eu não sou a maior fã de jazz, mas foi até legal. Acho só que podia ficar só ele e o outro moço (neto do Tom Jobin) cantando, com o Pizzarelli tocando, porque ele toca muito bem, e contando os casos dele, porque ele é engraçado, e os outros músicos podiam até ficar lá, mas sem tocar. Nesse dia andamos por uns lugares diferentes dos que tínhamos visto até aquele momento. Essa foi, na verdade, a parte de Paris que não gostei. Tinha umas coisas bem legais, mas era mais suja e mais barulhenta do que os outros lugares.

No dia seguinte fomos ao Arboretum, que é um lugar lindo. E tem uma coleção de bonsais, um mais bonito do que o outro. Durante toda a viagem, eu tirava fotos para minha mãe, e acho que de lá tirei bem umas duzentas fotos, porque o tempo todo pensava no tanto que ela ia gostar de lá (e ela gostou tanto que quer ir trabalhar lá como guarda-bosque).

Como bons turistas (na verdade só eu conhecia nada ainda), fomos ver o Arco do Triunfo e a Torre Eiffel. Foi aí que cheguei à conclusão de que os franceses deviam ser, em alguma época, meio megalômanos, porque é tudo tão grande, tão imponente! É impressionante parar do lado desses monumentos, eu só ficava pensando em quanto tempo levou para aquilo ficar pronto. O Arco do Triunfo, todo elaborado. E são lindos (tá, o Arco eu achei lindo, a Torre é impressionante pelo tamanho, mas não achei assim bonita).CAM01389

E, se não me engano, foi nesse dia que fomos, pela (minha) primeira vez, a um restaurante típico francês.

Bom, o ambiente era legal (a moça que atendia a gente no início pareceu meio antipática, mas no fim nem era), e a comida era gostosa. O problema foi outro. Nesse restaurante, se você não ocupa uma mesa toda, desconhecidos sentam nas cadeiras que sobram. Ok. Aí entraram duas meninas e sentaram na mesma mesa que a gente. Uma acho que era norte-americana, e a outra não conseguimos definir, porque ela falava francês (me pareceu que muito bem), mas ela não parecia ser de lá, parecia ser brasileira. Elas conversavam em inglês, porque a norte-americana não falava francês. E aí o que elas pediram para comer foi: Steak Tartare (parece que esse era de carne de vaca). A que falava francês agia como se já conhecesse o prato e gostasse, e aí não sei se ela que sugeriu ou se foi para conhecer, mas a norte-americana pediu também.

Aí chega aquela coisa na mesa. Aquela coisa que tem um cheiro ruim, uma aparência horrenda e faz um barulho nojento quando mexem nele com o garfo. Acho que do mesmo jeito que antes os restaurantes tinham a ala separada para os fumantes, eles deveriam ter uma ala separada, bem separada, para quem pede Steak Tartare, porque ninguém é obrigado a ter que comer aguentando aquele cheiro horrendo. Eu já estava a ponto de virar os pratos na cabeça delas. E quando começaram a comer, a que falava francês ficava falando “e aí, viu que é bom? Eh, é muito gostoso”, e a outra respondia que “ah, é ótimo, muito intenso, né”, e era tão, mas tão bom, que elas acabaram largando quase tudo no prato. Quase não fez diferença entre o prato antes de elas começarem a comer e depois, porque estava quase tudo lá. Agora, prá que pede essa desgraça, obriga quem está perto a aguentar aquele treco nojento ali do lado enquanto tenta comer a própria comida, e ainda larga tudo no prato? Não pede, oras!

Num outro dia fomos a uma livraria de cinco andares. Tem tudo de tudo nela, e tem uns livros com o preço bem bom. Ele ficou lá um tempão pegando trocentos livros (quase empurrei ele pra fora da livraria, porque estava fechando e estávamos sendo enxotados), mas para mim, infelizmente, ela perdeu a graça bem rápido, já que são cinco andares de livros numa língua que não sei ler. Ele disse que tinha livros em várias línguas, mas que não tivemos tempo de ver (só vi uns em inglês). Queríamos voltar lá com calma, mas acabou que não deu. Tem também uma loja de cds e uma papelaria (é tipo uma rede), e ficam todas perto, uma seguida da outra. Queríamos ter ido ver essas lojas também (eu queria ir principalmente ver a papelaria), mas também não deu. O que acontece é que priorizamos passear por outros lugares, conhecendo a cidade e os monumentos (para que eu conhecesse, na verdade, porque ele já conhecia tudo), e aí não dava tempo, porque até chegarmos, as coisas já estavam fechadas ou fechando.

Nesse dia da livraria, acho, nós comemos um prato que chama Moules-frites, ou seja, mexilhões (moules) e batatas fritas. Ele e a irmã já tinham me falado (e me mostrado mais ou menos, aliás, num dos passeios) desse prato, que é tipicamente belga, acho, mas tem bastante em Paris. Quando vi, pensei “jamé, mané”, mas depois de comer conquilhas em Tavira, reconsiderei e pensei mesmo que ia gostar. Fomos, então. Os mexilhões vêm cozidos, servidos numa panela. Quando olhei para aquilo, perdi a coragem. Cadê minhas conquilhinhas tão bonitinhas, tão pequenas e cheirosinhas? O que era aquele monstro amarelo dentro daquela concha enorme e com cheiro de mar?

Ele começou a comer imediatamente, com a melhor cara do mundo. Eu respirei, encarei aquele treco esquisito que parecia que tinha antenas (seria uma baratona amarela?) e que quando eu tentava puxar de dentro da concha abria e se revelava mais nojento por dentro do que era por fora – e era bem nojento por fora! –, tomei coragem e comi. Puta.merda. É o que tenho a dizer. Aquilo é basicamente um catarro muito consistente e com cheiro de mar. Eu não sabia se engolia logo ou mastigava, mas era difícil engolir direto, e mastigar era terrível. Aquele treco meio molengo dentro da boca, parece que não tem uma hora certa de engolir, eu só engolia logo para poder parar de mastigar. A minha vontade real era cuspir. Mas engoli. E ainda tentei comer alguns, mas desisti quando estava ruim até empurrando com batata frita. E ele falava “mergulha o pão [tinha um pãozinho] no caldo no fundo da panela, é delicioso”. Mas era água do mar! Tinha cheiro de água do mar, tinha gosto de água do mar! O resultado foi que eu comi umas quantas batatas fritas e ele comeu duas panelas de mexilhão.

Fomos também ao Louvre um dia, mas ficamos só no Carrossel, sem entrar no museu, CAM01398porque a fila estava enorme (claro). Mas é lindo o Carrossel, e fiquei bem satisfeita só com isso. Andamos por lá um pouco (péra, será que foi esse o dia do Steak Tartare?) e vimos vários antiquários. Era uma região um pouco diferente também, um pouco mais suja, e apesar de no início eu ter achado feia, depois vi que era bonitinha, com uns pontos bem bonitos. Vimos também o Museu d’Orsay, mas também só por fora (e é lindo), por causa de fila. Isso acaba sendo meio chato, porque, como é o momento de férias, tem milhares de turistas, então pra tudo tem uma fila gigantesca. A fila do d’Orsay era menor do que a do Louvre, mas apesar da vontade de entrar e tals, nós preferíamos poder conhecer mais lugares do que ficar sabe-se lá quanto tempo parados numa fila. Quando estávamos voltando, à noite, tinha umas bandas tocando na margem do Sena. Era bem legal.

E no que acho que foi o último lá, fomos ver a Basílica de Sacré Cœur, que, para variar, é enorme e linda. E a região, apesar de muito turística, cheia de lojas de cacareco, é muito bonitinha também. Acho que é um dos poucos lugares que fomos que não é reto, mas ainda assim é bem agradável. E de lá de cima a gente vê a cidade toda. Sei que já falei isso mil vezes, mas é tudo muito bonito, e é muito bonita a vista. Fica repetitivo, eu sei, e o único comentário que faço é “é tão grande e bonito”, mas é porque é isso mesmo.  A gente começa a ver as coisas de longe, e quando vai andando da direção delas e vê como elas são grandiosas, trabalhadas, imponentes, fica só meio embasbacado. Não vou ficar fazendo aquelas análises tipo “o estilo tal, da época tal fica bem marcado”, até porque nem sei disso. E não me importa se a construção é carregada, pesada, escura, gótica, me importa que é bonita, e que às vezes eu até perdia o ar quando chegava perto e olhava para cima.

Na nossa última noite lá (ou era a penúltima?) fomos jantar na casa dos amigos, e como queríamos deixar um bolo de cenoura com cobertura de chocolate para os donos da casa, resolvemos fazer um de “teste” para esse jantar, para perguntar se eles achavam que os donos da casa gostariam desse bolo. Bom, eu faço quase tudo com açúcar cristal, mas não tinha, aí fiz com um marrom que tinha lá (que imagino que seja tipo o demerara). Já fiz cookies com demerara e detestei o resultado, eles ficaram esquisitos e meio duros. Mas resolvemos tentar. Esse bolo é feito no liquidificador (principalmente por causa da cenoura), e não tinha liquidificador na casa, então resolvemos fazer com o mixer. Você já fez bolo com o mixer, e numa bacia? Eu fiz, e vou te dizer: não é bom. Voava massa em mim, na parede, no fogão, na louça lavada ali do lado, em tudo, tudo o que estava por perto, mas principalmente em mim. Quando resolvi parar, tinha mais massa fora da bacia do que dentro. Aí descobrimos um processador, e passamos a massa para ele. Sem contar que o mixer não desfaz bem a cenoura.

No fim, o bolo saiu, mas ruim. O açúcar deixou ele com um gosto estranho, estava meio duro, não tinha gosto de bolo de cenoura e cheirava a amêndoas torradas. As pessoas falaram que estava ótimo, mas ninguém ia falar que estava ruim! Pelo menos não na nossa frente…

No outro dia fizemos o bolo para deixar lá, e insistimos no de cenoura mesmo. Mas compramos açúcar de verdade e dessa vez colocamos primeiro a cenoura no processador e batemos o resto na batedeira. Ficou ainda um pouco diferente, não sabemos o motivo, mas chegou bem próximo do bolo de cenoura de verdade, e ficou gostoso. Sem contar que lá o chocolate é bom (e barato, porque pra achar chocolate bom aqui, tem que estar disposto a pagar caro por alguma barrinha mequetrefe), então a cobertura compensava o bolo.

Então, no dia em que os donos da casa voltariam, nós fomos para a Bélgica.

 

Anúncios

Viagem II: Tavira

Como a Xanda (com o Rafael e a Olívia, claro) estava indo para Tavira nesse tempo em que eu estava na França, ela sugeriu que eu fosse com ela (na verdade nós fomos no mesmo dia, nos encontramos no aeroporto, e de lá fomos todos juntos para Tavira).

Dessa vez fui sozinha, então não tinha braço para apertar quando o avião balançava. O avião atrasou uma hora para sair, e os passageiros não tinham ali por perto um salão de embarque com cadeirinhas para ficar durante essa hora, assim, ficamos em pé em uma fila. Aí, depois de quase uma hora, andamos um pouco e ficamos em pé em outra fila, e depois de mais um tempo, em pé em outra fila, que era para entrar no avião. Tudo era dito em francês, e se não entendo quando a pessoa fala francês comigo ali, olho no olho, tinha zero chance de entender o que falavam naquelas caixinhas horrorosas (mal português entendo, imagina francês). Por sorte a menina que estava atrás de mim na fila era portuguesa, mas morava na França, então falava perfeitamente as duas línguas. E por sorte também nós sentamos bem perto, aí ela me ajudava com as aeromoças (eu mencionei que também não falo inglês? Pois é, não falo) e tals. Ela era muito legal, aliás, e fiquei triste por não termos trocado algum contato. Enfim, com uma hora de atraso, chegamos em Faro, e de lá seguimos para Tavira.

A cidade é linda, com casas principalmente antigas e brancas.CAM00456

Adorei também. E lá eu descobri que: a) verão é verão de verdade, e então eu devia ter levado roupas mais frescas; b) eu me lembrava de praticamente nada de lá, e o que eu achava que lembrava era muito diferente (tirando uma coisa, que daqui a pouco digo); c) cels, que comida maravilhosa. Sério, a Xanda tinha me dito, da primeira vez que foi lá, que nunca tinha comido tão bem na vida, e eu nem dei bola. E era verdade. Verdade verdadeira. Eu não sou uma pessoa que costuma comer salada, mas lá comi todos os dias, porque ela era sempre tão bonita, fresquinha, os tomates sempre tão maduros, que não era uma coisa que eu comia por achar que devia, mas porque dava vontade de comer. E tinha vez que acabava a salada do meu prato, e eu achava meio paia, porque queria mais (mas é bom lembrar que, se vinha azeite na salada, era muito pouco. Cada um que colocava no próprio prato, e como não gosto de muito azeite na salada, isso pode ter ajudado. Mas tudo estar sempre tão bonito e suculento ajuda mais ainda). Os peixes, maravilhosos. Os doces também. Tudo delicioso! Teve uma coisa que comi lá que estava ruim, na verdade, que foi um salmão, porque estava gorduroso demais (meu pai disse que devia ser salmão selvagem, que é mais gorduroso). A comida lá é, pelo que vimos, normalmente leve, fresca, simples e deliciosa. A comida em casa, que minha tia fazia, também era muito boa, e também sempre leve e fresca.

Ficamos na casa de uma tia avó nossa, porque ela não usando a casa agora. O apartamento é bonito e bem grande, mas tinha problema: um quarto ficava num lado do apartamento, e o outro quarto ficava do outro lado, bem longe, depois de sala, hall de entrada, banheiro, cozinha, corredor, mais corredor e outra sala. Eu fiquei nesse quarto longe de tudo e todos, e ainda por cima numa cama de casal. Ou seja: não dormi. Não só porque o quarto era afastado e a casa estalava a noite inteira e o barulho do vizinho parecia que era dentro de casa (da que eu estava, não só da dele), mas também porque eu estava numa cama de casal, e todo mundo sabe que, se você dorme sozinho numa cama de casal, algum espírito, ou o demônio, a menina do Exorcista, o tio Fester, a Samara, aquela menina do corredor, o Beetlejuice, o Monstro do Armário, enfim, qualquer coisa horrorosa dessas vai aparecer ali do seu lado. Ou seja (de novo): além de não dormir, eu ficava a noite toda virada só para o lado da porta (tinha que ver se alguém entrasse!), com medo de virar e ter alguma coisa do meu lado, e ainda puxava a cobertura da cama pra cima, antes de dormir, “ocupando” o espaço vazio da cama, pra não caber quem quer que quisesse deitar lá.

Enfim, no primeiro dia nós passeamos um pouco pela cidade e almoçamos no shopping, porque minha prima trabalha lá. Nesse dia confesso que, em vez de alguma coisa de lá, comi arroz, feijão, carne e batata frita. Juro que dessa vez não foi por ser chata para comer, e sim porque quando vi aquilo minha boca encheu d’água. Estava doida por um almoço desses, e estava tãaao gostoso! No dia seguinte fomos até as grutas (acho que chama Ponta da Piedade), mas não descemos, só vimos de cima, porque estava tarde já, e o sol muito forte. Reclamei um pouco desse passeio, porque achei meio ideia de jerico ir quarar no sol em cima de uma pedra. Mas assim, era bonito! Só que podia ser melhor num dia menos quente e com menos sol, muito menos sol (mas sem chover!). Aliás, nem ligo muito para a temperatura, podia só ter menos sol.IMG-20170718-WA0009

No outro dia fomos à praia. Eu não tinha levado maiô, e tinha certeza de que não iria querer nadar. A Xanda comprou um maiô para mim, mas como não gosto de ir à praia (aliás, até gosto, mas no fim de tarde – de novo o problema com o sol – e na praia mais vazia possível – o eterno problema com gente), no início eu nem queria ir, mas acabei indo para conhecer. Pra chegar na praia, tem que pegar o comboio e andar um pouquinho, mas é bem pouco mesmo. Eu planejava ficar só lá sentada na sombra, mas não deu. Porque a praia é linda. Linda. Maravilhosa. A água é de uma cor maravilhosa, a areia é diferente, macia e clara, e não tem quiosques. As pessoas podem escolher se querem alugar uma espécie de tenda ou um guarda-sol (o aluguel é para o dia inteiro), e tem uns restaurantes perto, mas não exatamente na praia. A água era deliciosa e muito clara. Sério, maravilhosa aquela praia. No almoço, comemos conquilhas. Eu não conhecia, e fiquei meio relutante, mas é muito gostoso! Tá, é aquela história duma coisa meio gosmenta numa concha, mas como é pequena, você só engole, não tem que lidar com gosma, e sente o sabor, que é bom. Comi também um peixe que não conhecia, o espadarte, que entrou pra lista dos peixes preferidos. E foi na praia que comi uma das coisas que mais amo na vida, e era meio que a única coisa que eu lembrava de lá: Bolas de Berlim. Antes elas tinham creme, mas mesmo sem o creme tenho certeza de que o sabor sempre foi aquele.CAM00485

No dia seguinte resolvemos passar o dia com a nossa avó, e almoçamos na casa da nossa prima, numa cidade próxima. A cidade é bem pequena, mas também bonitinha, e o almoço foi, mais uma vez, maravilhoso. Mais cedo fomos rapidinho ao mercado, que também é muito legal. É bem grande e tem várias coisas (cada potão de mel…), o problema é que muitos vendedores já não vão, então ficam lá várias barracas fechadas, sem uso.

A razão dessa viagem era visitar a nossa família (agora, avó, tia e prima) que mora lá. A Xanda esteve lá umas duas vezes já, mas eu nunca tinha ido e estava bem nervosa. Porque da última vez que estive com elas eu tinha uns 3 ou 4 anos, e, apesar de ter ainda visto a minha avó uma vez que ela veio aqui, eu ainda era bem pequena, e não me lembrava dela, e nem da minha tia e da minha prima. Como normalmente sou tímida, e travo em algumas situações, fiquei com medo de travar, de ser estranho, de (eu sei que soa bobo, mas eu realmente ficava pensando nisso) elas não gostarem de mim. Só que foi maravilhoso ter ido. Primeiro que não me senti deslocada nem fiquei muito tímida, porque não parecia que tinha quase trinta anos que a gente não se via. Eu me senti bem, me senti em casa, como se sempre fosse lá e convivesse com elas. Segundo, e a Xanda tinha mesmo me dito isso, nós vemos o tanto que somos de lá, o tanto que aquela casa faz parte da gente. Alguma coisa do jeito, algumas manias, mesmo sem conviver, ficaram.

Foi doloroso ir embora. Acho que me despedi das pessoas umas dez vezes, porque era difícil ir embora sabendo que talvez demore até nos encontrarmos de novo. Não mais trinta anos, eu espero, mas não é uma viagem simples e barata. Foi maravilhoso ter ido lá, mas poucas coisas até hoje foram piores, poucas coisas foram mais difíceis, do que voltar, do que ter que me despedir delas.

 

 

 

 

 

Viagem I: Paris

E então eu viajei para fora do país, pela primeira vez depois de adulta (porque já tinha viajado quando era criança, mas muito pequena). Juntei dinheiro por dois anos para fazer essa viagem, e o destino foi, primeiro, Paris (na verdade, uma comuna francesa ao sul de Paris).

Começando pela viagem, a verdade é que eu tenho medo de viajar de avião. Mais verdade ainda é que não gosto de viajar e ponto (gosto de estar no lugar, mas a viagem em si não é algo que aprecio), mas avião, lá naquela altura… não acho que nasci pra isso não. Fomos sentados juntos, claro, e cada vez que o avião balançava, eu apertava o braço dele quase em pânico. Com certeza se tivesse balançado muito, eu teria sujado as calças gritado, esperneado e chorado (primeiro de medo, depois de vergonha). Mas a viagem foi tranquila, com pequenos momentos de turbulência. A pior parte, na verdade, foi a comida, que estava bem pesada e enjoativa. Acho que levei uns três dias para digerir aquilo.

A minha primeira impressão, indo do aeroporto para a casa em que ficamos, não foi boa, para ser sincera. Era uma cidade grande como outra qualquer, meio feia, meio suja, muito movimentada. Eu olhava e olhava procurando as coisas bonitas que eu esperava de lá, mas só via uma cidade como a que eu moro, só que mais limpa (ou menos suja). Mas aí o cenário mudou de repente, e aí começaram a aparecer só os prédios pequenos e antigos, tudo bonitinho, mais limpo, e – e isso eu amei – com vasos de flores nas ruas. Tem tipo umas grades no passeio, e em cima ficam vasos de flores, e são lindas! E depois, passando do lado desses vasos, vi que eles estão, na maioria das vezes, limpos, não são usados como cinzeiro ou lixeira.

A casa em que ficamos era muito bonita, e o gato que tinha lá, uma gracinha. E, ao que parece, gostou da gente, tendo feito xixi no chinelo dele (não no do gato, que não usa chinelos) – o que, pelo que disseram, é uma amostra de carinho, apesar de não ser das mais ortodoxas – e começado a comer só quando a gente estava na cozinha (ele parava de comer se saíamos e vinha miando atrás da gente, e voltava a comer quando voltávamos para a cozinha), e às vezes comia só se a gente ficasse lá do lado, fazendo carinho nele. E a cozinha da casa era ótima, com todos aqueles armários geniais que vemos nesses programas tipo “Irmãos à obra”, que você puxa as prateleiras, sem ter que ficar engatinhando para dentro do armário para pegar o que quer.

Tivemos problema só com o forno, que era elétrico e tecnológico demais para a gente: um dia resolvemos fazer torradas no forno, e tinha lá dois “botões” (como chama? Aquele treco que não é botão, porque você não aperta, mas é de girar), um com o desenho de um termômetro e vários números (isso pelo menos a gente entendeu o que era) e um com mil desenhos que queriam dizer nada. Assumimos que tínhamos que girar os dois para ligar o forno, então colocamos numa temperatura média o do termômetro e o outro giramos para o lado que achamos que faria sentido, parando num desenho qualquer daqueles todos. Bom, ele começou a esquentar, achamos que estava tudo certo. Até que a porta travou, e não havia meios de abrir. Só à noite, tentando lá girar esses “botões”, ele conseguiu abrir o forno. Mas não desistimos! No outro dia lá estávamos nós de novo, tentando usar o forno. Achei que a gente devia girar só o da temperatura (já que acendia uma luzinha), mas não esquentava, então ele foi e girou o outro de novo, para o mesmo lado. Resultado: travou de novo, mas pelos menos agora sabíamos como destravar. Aí, conversando com um amigo, ele sugeriu que girássemos para o outro lado, parando num outro desenho sem sentido, porque aparentemente nós, os gênios da tecnologia, estávamos era ligando o ciclo de limpeza do forno. E plim, adiantou.

No primeiro dia lá, fomos a uma feirinha que tem de tudo. Tudo, tudo mesmo. Comidas (frutas, legumes, verduras, carnes, doces, tudo), roupas, malas, livros, cacarecos. E como chegamos no fim, as coisas já estavam bem baratas, e por isso nós compramos três quilos de cerejas. E eu vou te falar: três quilos de cerejas é cereja demais. Quando chegamos em casa e colocamos tudo em vasilhas, tinha cereja que não acabava mais. E no fim acabamos jogando umas quantas fora, porque elas começaram a mofar. Compramos também uma caixa de framboesas (uma caixa grande com várias caixinhas dentro), daquelas que têm um buraquinho no meio (eu nunca tinha comido e fiquei levemente decepcionada, porque achei que eram bem mais doces e saborosas, e estavam bem sem graça), mas só depois vimos que muitas já estavam mofadas. Esse acaba sendo o problema; as coisas estão tão baratas que a gente compra meio que sem pensar, porque vale a pena, mas aí ou elas podem já vir estragadas ou começar a estragar logo, o que é chato. Também no nosso primeiro dia lá fizemos compras no supermercado, e foi aí que descobri duas coisas maravilhosas: a primeira é que o queijo que mais gosto na vida, que é o emmental, é um dos mais baratos (se bobear, o mais barato). Ou seja, comi até fartar (mentira, que esse momento não chegou. Comi até ir embora de lá, para ser mais sincera. Só no primeiro dia nós comemos quase meio quilo de queijo. Vê, e ainda teve gente que achou que eu teria problemas para comer lá! Só porque sou “meio” chata para comer e porque no primeiro dia, quando saímos para comer com os amigos, tive alguma dificuldade de escolher entre algumas coisas meio esquisitas e acabei escolhendo um arroz com vermes – macarrão, verme, tava tudo meio parecido ali no meio). A segunda é que o pão de lá é inexplicável de bom. Tinha um que chamava flûte (finge que eu sei como escreve) que era super boboca, mas tão, tão bom… então nós comemos algumas outras coisas, mas a base da alimentação foi pão e queijo, e estava bom demais!

Por falar nisso, não vi pessoas com a baguete no sovaco. Nenhuma. Todo mundo andava com o pão embaladinho num saco de papel e normalmente levava na sacola ou no carrinho de compras. Podia até estar na mão, mas nunca embaixo do braço. Mentiram para mim. Mentiram também quando falaram que as pessoas de lá eram antipáticas, porque a maioria das pessoas com quem lidamos eram simpáticas e solícitas. E também fiquei estarrecida quando ele me falou que o pão francês que comemos aqui não existe na França! E não é “haaa, é porque lá eles só chamam de ‘pão’” não! Aquele pãozinho específico não.tem.lá. Ele não é francês! É mentira!

Outra mentira, da grossa, foi que lá era verão. Que porra de verão é esse que faz 14 graus no meio da tarde? Gente, verão pra mim tem sol e calor (não que eu quisesse sol e calor, mas teria levado uns casacos a mais, uns pijaminhas mais quentes e tals). Sério, estava, de maneira geral, frio. Tinha dia que nem fresco estava, era frio. Pouco antes de ir, vi um vídeo (bem engraçado, aliás) de um moço falando que o verão em Paris é terrivelmente quente e as pessoas ficam super fedendo. Realmente, fedor tinha mesmo. Sério, tem gente que precisa aprender que banho não é algo terrível não! Muita gente cheirava a falta de banho mesmo, ranço, sujeira. Muita gente tinha “só” cecê, o que é ruim, mas mais aceitável do que fedor completo. Mas calor? Quedê?? Alguns dias estavam mais quentes, mas não realmente quentes, e não o dia todo. À noite, por exemplo, fazia um frio considerável. Me senti terrivelmente enganada.

Nesses dias nós andamos bastante por Paris, visitando alguns lugares. Se não me engano, o primeiro foi Notre-Dame, que é linda, linda demais. A estação do metrô é muito perto dela, e aí você sobe a escada para sair e já dá de cara com a catedral, e ela é muito impressionante, porque é enorme e muito imponente, e à medida em que a gente chega perto, mais imponente ela fica. Não entramos, porque tinha uma fila enorme, só andamos em volta dela e fomos embora.

Uma coisa muito boa em Paris é que lá é muito bom de andar. É muito reto, de maneira geral, e muito agradável. Não sei, é gostoso andar lá. Chega uma hora que estamos cansados, doidos para sentar, e com os pés doendo, mas mesmo assim é bom. E o metrô lá é incrível, porque você consegue ir pra todo lado por ele, e passa a intervalos bem regulares. Na hora que olhei o mapa com aquele tanto de linhas de várias cores pensei que nunca ia entender aquela bagunça. Mas prestando atenção, dá pra ver que não é uma bagunça, e é de boa entender, no fim. O ônibus, mesmo sendo pior do que o metrô, no sentido de que demora mais e cobre menos lugares, também é muito bom. É daqueles silenciosos e que não sacodem tanto. E o bom de andar de ônibus às vezes é ver a cidade, porque no metrô quase não dá.

Outra coisa ótima lá é que, quando você compra uma coisa, sempre te dão o troco, mesmo que seja um centavo. Não é como certos lugares que colocam o preço de tudo a x reais e 99 centavos e “comem” as moedas de um centavo. Não importa qual o troco, eles te dão. E se você dá uma nota alta para comprar algo barato, não se recusam a te vender, fazem cara de cu, cospem na sua cara, na sua comida e na sua mãe. Se eles não tiverem troco, eles falam (educadamente, em geral. Só vi uma moça, num trem, fazendo estupidez porque ela não tinha troco – numa situação em que ela realmente deveria ter, aliás. Mas nesse caso era mais síndrome de pequena autoridade do que simplesmente falta de troco). Se tiverem, te vendem a coisa, de boa, e pronto.

De volta aos passeios, fomos também ao Jardim de Luxemburgo, que é lindo demais, ao Pantheón (mas infelizmente não deu para entrar) e a uma outra igreja muito bonita (mas não me lembro do nome). E é tudo lindo.

E como estava na época das promoções lá, tinha muita roupa muito barata! Mas um dos lugares mais legais era um brechó que vendia as coisas por peso. As roupas tinham etiquetas dizendo quantos euros por peso que ela custava, e tinha umas balanças espalhadas pelo brechó, aí você colocava lá a peça que você queria, ajustava o preço na balança, e ela te dava quanto ficaria.

A verdade é que eu, de cara, amei Paris. Achei a cidade linda, adorei ela ter quase que só prédios baixos e antigos (ou com aparência de antigos, nem ligo se for só imitação). Adorei andar pela cidade. Não gosto de andar aqui, e muitas vezes, só pelo desânimo que me dá quando penso em ter que colocar o pé pra fora de casa e/ou entrar em um ônibus, acabo ficando sempre em casa. Mas lá, mesmo que às vezes tenha me dado preguiça pensar em pegar o metrô, não foi o suficiente para eu não querer sair. Quase todos os meus sapatos me machucavam (não tenho algum que seja bom para andar) mas eu estava gostando tanto, estava tão confortável (apesar da dor e de às vezes ter certeza de que quando eu tirasse os sapatos meus pés, ou pelo menos alguns dedos, ficariam lá dentro), tão feliz, que acabava preferindo aguentar mais um pouco e andar, ou então sentar em algum lugar uns minutinhos e ficar olhando o movimento (e comendo, é claro), do que voltar logo para a casa ou simplesmente não sair.

O único problema que tive lá, que na verdade não chegou a ser realmente um problema, foi que, mesmo tendo ido com alguém que fala francês, seria bom para mim saber pelo menos um pouco da língua. Porque eu não podia perguntar as coisas para as pessoas, ele tinha que perguntar tudo o que eu queria saber, traduzir para mim, aí eu respondia, e ele traduzia a resposta para a pessoa. E nós encontramos pessoas lá com quem eu gostaria de ter conversado, mas não pude. E aí às vezes eles estavam conversando, e eu ficava lá, olhando, tentando pescar algumas coisas. Sabe aquelas cenas de filme, sempre constrangedoras, em que tem umas pessoas conversando e elas começam a rir, e aí alguém que não faz parte do grupo e não sabe qual é a graça ri junto só para se enturmar? Era assim que me sentia às vezes. Porque eles estavam conversando, e riam ou ficavam sérios, e eu, mesmo sem entender o que era dito, ou ria, porque é meio paia quando está todo mundo rindo e você está lá no meio com cara de paisagem, ou ficava séria e fazia cara de “nossa, que chato”, mas sem nem saber direito o que raios era chato. E é estranho, porque mesmo que por um lado eu sentisse que devia acompanhar o “humor” do grupo, por outro, eles sabiam que eu não entendia o que eles estavam dizendo, então eu me sentia como se estivesse fingindo que entendia a conversa, e que talvez, então, eu devesse ficar com cara de paisagem. Mas aí podia criar algum desconforto, porque eles podiam ficar meio sem graça achando que eu estava entediada. Ele traduzia algumas partes da conversa pra mim, mas também não dava para ficar traduzindo tudo, porque senão eles não conseguiriam conversar.

No fim da viagem, quando as pessoas falavam devagar eu até que conseguia pegar bastante, mas muita coisa ainda ficava de fora, e a gente não ia ficar pedindo para todo mundo falar bem devagar, pra ver se eu acompanhava a conversa. Até porque eu não conseguiria participar; mesmo pescando algumas coisas, não consigo falar. A única coisa que falei, durante todo o tempo lá, foi “merci”. Todos conversavam, ele que resolvia tudo em francês, e no fim, indo embora, eu soltava um “merci”, pra todo mundo, pra todo lado. Fiquei ótima em falar “merci”; falo perfeitamente, todo mundo entendia!

E então, depois de uns dias em Paris, fui para Tavira.

Um dia estava conversando com umas amigas, e uma delas, que sempre se entendeu feminista (e durante a adolescência era até um pouco radical), disse que, como eu, ela tem zero paciência para o feminismo de hoje, para o que o movimento virou.

Claro que isso não quer dizer que nós defendemos o machismo. A gente sabe que é necessário um movimento pela mulher, de luta pelos direitos. Não achamos justo, por exemplo, que mulheres normalmente tenham um salário mais baixo do que homens, mesmo quando desempenham as mesmas funções, não defendemos estuprador e nem acreditamos que uma mulher “mereça” ser estuprada por usar certo tipo de roupa ou se comportar de uma maneira pouco “recatada”. Sabemos que a sociedade em que vivemos é machista, que tem vários problemas e injustiças, e tentamos, do nosso jeito, lutar contra isso. O que acontece comigo, e tenho a impressão de que com ela também, é que não queremos ser vinculadas ao movimento feminista de hoje.

Mas não acredito que sejamos as únicas que pensamos assim. Claro que alguns discursos são realmente imbecis; não são de alguém que não quer ser visto como feminista por causa da cara que o feminismo tem hoje, mas de quem é só ignorante por escolha (porque condições para resolver isso tem, mas optou pela ignorância). Por exemplo: um dia vi pelo facebook uma menina que tinha compartilhado um vídeo do Kim Kataguiri (bem-feito para mim, que ainda leio o que escreve quem compartilha vídeo dessa coisa) que dizia que na verdade mulheres não recebem menos do que homens. E ela concordava com ele, porque ela não recebe menos e é valorizada no trabalho (e assim a gente descobre que uma pessoa é que faz a maioria, e não… hm… a maioria?). Mas isso não era o pior. O pior era ela dizer que não precisava do feminismo porque ela sempre optou por estudar e se esforçar, mostrando que é boa no que faz, enquanto as mulheres que recebem menos e são pouco valorizadas não dão o melhor de si no trabalho, e depois se fazem de vítimas, dizem que é machismo, sempre se apoiando no feminismo para isso.

Pena. Mal sabe ela que meio que tudo o que ela tem ela deve ao feminismo. Poder estudar, trabalhar, e inclusive opinar. Será que ela valoriza o voto dela? Porque assim, é por causa do feminismo que ela pode votar. Tudo o que ela pode fazer que não seja costurar, casar, ter filhos e cuidar da casa, do marido e dos filhos ela deve ao feminismo, que lutou para que as mulheres tivessem direitos, para que elas fossem consideradas pessoas e fossem tratadas como.

Mas existem também muitas mulheres que hoje se colocam contra o feminismo, apesar de saberem da importância dele, porque não concordam com o que ele virou. Porque o que para elas era para ser um movimento de igualdade entre os sexos, virou um movimento sexista, que defende a supremacia de um sexo e tem meio que um discurso de ódio mesmo sobre o outro. Que é excludente. Que não aceita generalizações babacas sobre um sexo, mas adora fazer sobre o outro, e acha que está certo. Que acha que um sexo é incriticável e que qualquer crítica negativa feita é sexista, mesmo quando claramente não é. E eu aqui estou falando do feminismo, mas poderia bem estar falando do machismo, porque o feminismo agora virou sim o oposto do machismo. Ele perdeu as medidas. Já vi gente falando que um professor era machista porque fez muitas críticas negativas ao trabalho de uma aluna; a pessoa saiu por aí falando que ele só fez isso porque era o trabalho de uma mulher. Não pode ser porque o trabalho tinha problemas, não, a única explicação é esse professor é machista (o que ele realmente não é!). E aí as pessoas falam “ah, já imaginou que mundo maravilhoso aquele em que uma mulher fala para um homem ‘isso foi machista’ e ele pede desculpas”. Uai, isso seria sim um mundo maravilhoso sim, mas nesse mundo maravilhoso as mulheres param para pensar o que é machismo e o que não é, porque isso já não acontece. Agora, certamente é lindo esse mundo em que elas falam “todo homem é um estuprador em potencial” (o que é uma babaquice).

Só que aí, quando mulheres falam que não são feministas porque não odeiam homens, ou porque acreditam na igualdade dos sexos, as mesmas pessoas que disseminam esse discurso sexista, de ódio, falam que não, que isso não é feminismo, não é ódio aos homens, não é supremacia de um sexo, é inclusão e igualdade. Ou seja: injetam no feminismo elementos que não são dele (ou que são só de alguma vertente), mas quando uma mulher diz que não é feminista justamente por causa desses elementos, dizem que isso não é feminismo. E culpam a sociedade por essa mulher não querer se vincular ao feminismo, culpam a criação, culpam tudo, menos a si mesmas.

Claro que em muitos casos isso vem mesmo da sociedade, que é sim machista, mas essa é uma justificativa para quem nunca concordou com o feminismo ou nunca soube o que era. A culpa de certas mulheres deixarem de se identificar com o feminismo – ou seja, elas acreditavam naquilo, mas deixaram de concordar com o que ele diz e acredita, ou melhor, com o que ele passou a dizer – e justificarem isso dizendo que é porque acreditam na igualdade entre os sexos não é culpa da sociedade, é culpa das próprias feministas. Essas mulheres não são machistas, mas não concordam com um movimento que defende que todo homem é, por definição, ruim, e que toda mulher é, também por definição, boa. Não acham que quando um homem cuzão faz alguma coisa imbecil é “homem fazendo homice”, mas sim um babaca fazendo babaquice, assim como não gostariam que dissessem que se uma mulher cuzona faz uma imbecilidade é “mulher fazendo mulherzice”.

No fim, o que acontece é que quem não concorda com esse movimento feminista de hoje acaba ou simplesmente deixando de se dizer feminista – porque acha mais fácil do que ter que ficar explicando que é feminista, mas não de acordo com o que o movimento é hoje –, ou toma uma birra tão grande do feminismo que às vezes nem pára mesmo para pensar se alguma situação é ou não de machismo, só assume que não é e que o feminismo é só “mimimi” e vitimismo. E para mim, pelo menos, isso é grave. É mais grave do que o feminismo (o “real”, por assim dizer) não ter alcançado algumas mulheres, porque como as coisas estão, ele não só não está atraindo mais pessoas, mas está afastando as que um dia concordaram com ele.

Tenho certeza de que vai ter gente que, depois de ler esse texto, vai fazer questão de entender que eu estou dizendo que machismo não existe, mas, mesmo que seja inútil deixar isso (mais) claro (porque se a pessoa quer entender assim, ela vai), ressalto que não é o que estou dizendo. Já disse que sei que a sociedade é muito machista, sei que o feminismo é necessário e até pouco tempo me dizia feminista, mas não acho que o feminismo de hoje seja o certo, não acho que as coisas com ele andem na direção certa.

Minha mãe sempre cita, quando conversamos sobre isso (ou sobre política), o “dividir para reinar”. Esse movimento precisa voltar a ser de união – com todos os sexos. Facebook não é cérebro, então parem de usar como se fosse. As pessoas precisam urgentemente voltar a pensar, a ponderar as situações, e parar de repetir feito papagaio o que os outros dizem. Porque todo esse radicalismo (assim como todo tipo de radicalismo) não é bom, não traz bons resultados e não traz união.

Bom. Eu comecei, tem um tempo, a fazer um texto falando meio que sobre a loucura das pessoas, principalmente quando se trata de religião (mas era mesmo sobre as coisas daqui, tipo bancada-que-não-deveria-existir-evangélica e etc.), mas aí teve o problema em Paris e eu achei meio estranho postar.

Este vai começar com o mesmo comentário que ia fazer no outro: não costumo falar de coisas mais “polêmicas” e etc., mas tem hora… só espero que dessa vez não aconteça alguma coisa ruim meio relacionada com o que vou escrever.

Antes de tudo vou deixar claro que não quero que fique parecendo que eu acho mudanças sempre, ou por definição, ruins ou coisa assim. Nem que estou dizendo que todas as feministas são assim, ou que as mulheres não devem denunciar assédio e violência. Claro que devem! Não estou justificando quem pratica algum tipo de violência contra a mulher, porque é inaceitável. Mas estou criticando, sim, o movimento feminista que eu tenho visto.

Durante uma época da minha vida (não muito distante) eu me dizia feminista. E eu dizia isso porque acredito que tem que existir igualdade entre os sexos. Porque acho que as mulheres devem ter os mesmos direitos que os homens. Porque vejo que algumas coisas mudam, melhoram, mas muitas coisas ficam lá, do mesmo jeito ou piores, e estão erradas. Porque tem muita coisa tão injusta que dá até um desespero, raiva. E gente que faz umas coisas com as mulheres, e fala coisas sobre elas, que só não dá pra acreditar, e aí a gente pensa que não, que tem que ter como resolver, que essa pessoa não pode fazer isso e ficar de boa, que muito tem que mudar!

E aí algumas coisas mudaram. Nem todas pra melhor, infelizmente. E entre essas que pioraram está o feminismo. Eu não reconheço ele mais. Não sei mais o que é isso. Pra mim, não se chama mais feminismo, é uma completa loucura.

Antes, injusta e imbecilmente, sexistas falavam que “ai, para as feministas tudo é machismo”. E aí parece que em vez de provar que não, que não é assim, o que elas começaram a fazer? Falar que tudo, mas tudo é machismo. Se são criticadas ou questionadas, por exemplo, falam “será que fariam isso se fosse um homem?”, quando claramente sim, fariam!

E agora essa invenção de que “homem não pode ser feminista”. UAI! De onde isso saiu? CLARO QUE PODE! Se um homem se diz feminista, ele não está dizendo que é mulher nem nada como isso. Ele está dizendo que acredita nos propósitos do movimento, que concorda, que acha que tem sim que haver igualdade, que acha que as mulheres não são tratadas como devem, e, o que é mais importante, que está vendo que existe um problema e tomou um lado, que é o das mulheres. E talvez ele esteja dizendo, inclusive, que se e quando precisar ele não vai ficar sentado olhando, mas vai querer fazer alguma coisa para ajudar e apoiar.  O que já é bem mais do que algumas “feministas” fazem.

Pra mim é a coisa mais curiosa: por anos pessoas lutaram por união.  Lutaram para fazer com que todas as pessoas fossem vistas do mesmo modo, que tivessem o mesmo tratamento, sem distinções idiotas. Sem distinção de cor, sexo, sexualidade, etc. E então isso começa a acontecer. As pessoas começam a se sensibilizar mais pela causa das outras, começam a prestar atenção e a querer participar. Começam a ver que está errado, que é injusto, e querem falar, e querem defender, além da “própria” causa, a do “outro”, como se todas as causas fossem de todos – que é como deveria ser. Mas aí algumas pessoas se fecham em grupos, começam a achar ruim, falam “se você não é assim, você não pode defender essa causa”, e aí, pra fechar com chave de ouro, vi gente dizendo que, se quem é A vier falar sobre a causa de quem é B, é “protagonismo”. Quer dizer, não tem união, e as pessoas, na verdade, não querem que tenha. Você tem que respeitar cada pessoa (bom, isso é óbvio), mas não se intrometer na luta dela.  Apoia, mas calado, ok?!

Sabe, o nome disso é retrocesso.

E aí começa essa coisa de hashtag, que poderia ser legal, se fosse bem diferente de como é. Claro que tem que denunciar. Claro que tem que reclamar, e exigir que possa se vestir como quiser, sair a hora que quiser, com quem quiser, sem se preocupar com o que vai ouvir na rua e, pior, com o que pode acontecer.

As mulheres usam pra falar de coisas ruins que homens fizeram, mas quem tenta falar “olha, não é só homem que faz babaquice não” escuta que okay, mas a ideia é denunciar coisas que eles fazem, e não elas, e escuta que não existe ódio contra homem. Olha, existe. Claro que não se compara ao ódio contra a mulher, mas existe. E sabe o que você está fazendo quando diz que não importa o ódio contra o homem, e que não importa o que mulheres fazem de ruim? Sendo sexista. Sabe o que você está fazendo quando coloca os homens todos dentro de um saco e diz que são todos iguais? isso mesmo, sendo sexista. Você não está dizendo que homens e mulheres devem ser igualmente respeitados e valorizados; você está colocando a mulher acima do homem. E isso é sexismo.

E aí as mesmas pessoas que dizem essas coisas falam depois que o feminismo quer a igualdade entre os sexos. Mas então que é que está acontecendo? A pessoa sabe disso e se diz feminista. Ela não percebe o que está fazendo? Ou nesse “novo feminismo” só se quer igualdade quando convém?

Me parece, pelo que tenho visto (assim como tudo nesse texto) que essa “igualdade” consiste em separar homens e mulheres. Não em dizer que são diferentes, mas em separar. Em dizer que são os homens, e só eles, que fazem coisas erradas, em colocar essas coisas acima das que as mulheres fazem, como se elas fossem piores porque homens que fizeram. Em não dar tanta importância quando algo de ruim acontece com um homem, afinal com as mulheres acontecem coisas muito piores. Isso, aliás, é bem babaca. É como quando você fala “olha, isso aconteceu comigo, e foi ruim”, e o outro responde “nossa, comigo aconteceu bem pior”. Sabe, não é uma competição. Não deveria ser, pelo menos.

E me intriga que, com tanta propaganda machista, realmente machista, de eletrodoméstico e de produto de limpeza, com mulher dizendo que a vida acontece na cozinha, que o cloro da marca tal é mais do que um cloro, é “o cloro dos seus sonhos”, que coloca sempre a mulher esfregando o banheiro, lavando roupa, cozinhando, que sugere que nas datas comemorativas você compre geladeiras, fogões e panelas para a sua mãe, a preocupação das pessoas seja com homem que se diz feminista (como se isso fosse uma coisa ruim) e seja denunciar coisas ruins que homens fazem de um jeito que finge que mulher não faz coisa errada (sabe, você pode fingir que não vê, mas as coisas não vão sumir por isso).

E aí vi muitxs dessxs pessxxs qux xscrxvxm txdx cxm x prx txdx lxdx prx ficxr xnfxrnxlmxntx xlxgxvxl (entre outras coisas), principalmente mulheres, achando ótimo que alguns homens tenham ficado ofendidos porque na propaganda da Bombril (sério que alguém se prestou a isso?) foram chamados de “devagar”. Sabe, acho que quem gostou disso devia ter prestado mais atenção no comercial. Porque, segundo ele, “toda mulher é uma diva” porque além de trabalhar, limpa a casa. E é por isso que produto de limpeza serve é pra ela. Olha, eu prefiro sinceramente ser chamada de devagar do que ter que escutar alguém dizendo que eu brilho feito Bombril, ou pior, por causa dele.

No início do texto eu disse que me dizia feminista até pouco tempo. E é isso, dizia, não digo mais. Porque não me reconheço nesse feminismo tão sexista, tão excludente. E não quero me reconhecer nele. Não quero dizer que faço parte desse movimento.

Ontem minha mãe disse que não é feminista, porque ela não acredita na supremacia de um sexo. Minha primeira reação foi falar “mas feminismo não é isso!”, mas ela sabe perfeitamente que isso não era feminismo, mas que foi isso o que ele virou.

Então eu faço coro com ela. Se esse movimento “roubou” o nome feminismo, eu não sou feminista.

Mas então como chama hoje quem acredita nesse feminismo “de antes”?

Quando falamos de livros, normalmente ficamos mais no texto, na tradução etc., e aí alguns aspectos ficam meio de lado. Às vezes não nos lembramos de que, numa publicação, todos os responsáveis pelo material que cerca o texto têm grande participação, e podem ajudar a causar tanto um interesse pelo livro quanto uma certa antipatia.

[O] […] texto raramente se apresenta em estado nu, sem o reforço e o acompanhamento de certo número de produções, verbais ou não, como um nome de autor, um título, um prefácio, ilustrações, que nunca sabemos se devemos ou não considerar parte dele, mas que em todo o caso o cercam e prolongam, exatamente para apresentá-lo, no sentido habitual do verbo, mas também em seu sentido mais forte: para torná-lo presente, para garantir sua presença no mundo, sua “recepção” e seu consumo, sob a forma, pelo menos hoje, de um livro.[1]

Aí tem umas coisas que fazem com que a gente fique lá, encarando o livro, e pensado o que raios passou na cabeça de uma pessoa pra fazer aquilo; como ela achou que podia ser uma boa ideia. Umas coisas que acho que acabam mais espantando o leitor do que atraindo.

Por exemplo: cai na mão de um uma tradução da Odisseia a ser publicada. Aí ele fala “uau, deixarei esse livro lindo, vou colocar nisso toda a minha inteligência e bom gosto! Vou colocar uma linda fonte dourada na folha branca!” Aí sai aquele lindo livro ilegível. Aliás, quem tem esse livro diz que depois de um tempo dá dor de cabeça, por ter que ficar forçando a vista pra conseguir ler.

Qual é o propósito disso? Qual o propósito de fazer um livro bonito, mas ilegível? Sinceramente, olho esse livro e penso que se ele foi feito para não ser lido, pra que eu vou discutir? Melhor procurar uma tradução legível e, se sobrar dinheiro, compro essa para enfeitar a sala.

Outro. Alguém quer ler uma tradução da Ilíada. Entre as opções vê uma com mais de novecentas páginas. Mas gente, as outras são bem menores… as desse tradutor, então, são menores ainda, como esta é tão grande?, a pessoa pensa. Aí abre o livro e descobre que tem muitas notas. Muitas. Aliás, tem pelo menos uma nota para cada verso. Na verdade na maioria das vezes tem mais de uma nota para cada verso. E então a pessoa descobre que, apesar de o responsável pelas notas (que também é responsável pelo prefácio) dizer que o tradutor foi injustiçado pelos críticos, ele achou que era uma boa ideia colocar mais texto explicando o poema do que o tradutor colocou de texto. Então, se tem uns 13.116 versos, deve ter bem umas quarenta mil notas. Aí ele pensa se é mesmo uma boa ideia levar essa tradução, né… deve ter uma que não precise de tantas explicações… ou talvez seja uma ideia melhor ler esse outro livro aqui… e pronto, volta com essa Ilíada para a prateleira.

Mas se ele tivesse dado uma olhada nas notas e na tradução, passado o susto, teria visto que grande parte das explicações é inútil. Que tá, a linguagem é meio difícil, mas que quem fez as notas achou que tinha que explicar o que significa de heróis (“de guerreiros notáveis”) pasto (“alimento, repasto”), tinha que refazer o verso “nunca a libertarei, té que envelheça” (“enquanto for jovem e bonita, ficará comigo”), informar o que é treme (“tirita de pavor”). E isso só nos primeiros trinta versos. Não consigo entender como isso pode ter parecido uma boa ideia.

Tem uma edição de uma tradução da Ilíada tão, mas tão zoada, que não sei como saiu. Primeiro que resolveram escrever o título original, e escreveram errado. Aí o editor achou que era uma boa colocar notas explicativas, e, além de fazer notas idiotas, porque explicam coisas que o próprio texto explica umas ou duas linhas abaixo (ou pior: acima), ele desistiu no meio do caminho. Aliás, no meio não, bem antes: ele fez quatro notas, três delas estão na primeira página e a última está na última página do segundo canto. E acabou.

Aí tem também um parágrafo sobre a tradução, no final, dizendo que “foram suprimidas não somente as passagens que os estudiosos consideram meras interpolações, como também as obscuras, acerca de cuja exata significação os próprios eruditos discutem, e cuja reprodução de modo algum se justificaria”, mas o responsável por esse texto – que não está assinado – não se dignou a dizer que partes são essas e nem quem são esses estudiosos e nem o que eles falaram. Tá lá assim. Uma coisa meio acredite se quiser.

Tem também aqueles problemas mais comuns, mas que na hora a gente acaba relevando, como quando a fonte é pequena demais, ou quando o livro tem umas ilustrações feias, ou uns desenhinhos sem sentido e sem fonte. E é um saco quando você tá lá lendo e tem que abrir tanto o livro pra conseguir ler o que tá no canto, porque não tem margem, que acha que o livro vai rasgar. E muitas vezes ele rasga mesmo, as folhas começam a soltar. Ou então aquela coisa maravilhosa de nada fazer sentido quando você vira a página, e então você descobre que tem uma parte do texto que não tá lá, falta uma página inteira no seu livro (tá, isso é problema da gráfica, mas então podia procurar uma melhorzinha, porque né). Ou quando você tá lendo alguma coisa que tem versos numerados, mas a entrelinha é tão, mas tão pequena, que tem hora que não dá pra saber em que verso exatamente está o número. Fica aquela margem de erro de dois pra cima ou pra baixo. Mas esse tipo de coisa, quando vemos, normalmente pensamos “ah, se é o que tem…”

O ponto é que acho que as pessoas poderiam pensar direito na hora de fazer o livro. Não pode ser só “vou fazer um livro bonito”, ou “vou fazer um livro pequeno, de bolso”, sem pensar que um livro é para ser lido, e que, então, ele deve ser feito de um jeito que isso seja possível. Tá, tem gente que compra de verdade livro para enfeitar a sala, mas penso (ou espero) que não é uma maioria, e acho que isso não deve ser levado em conta na construção do livro. Se um livro é difícil de ler (não digo o texto difícil, e sim o livro em si, como objeto), se ele é difícil de manejar, perde a função e o propósito. Principalmente porque a leitura fica bem menos prazerosa.

[1] GENETTE. Paratextos editoriais, p. 19.

Ultimamente, por causa de uma matéria que estou fazendo, tenho pensado mais nessa questão dos clássicos no cinema. Mas só pensado mesmo, porque ainda não li coisas a respeito e tals, então esse texto é só sobre o que penso das coisas que vejo e ouço. Talvez ainda mude completamente de opinião, depois de ler algumas coisas, ou não.

Mas esse texto é mesmo sobre coisas que ouvi na última aula dessa disciplina: falando sobre apropriações e etc., a professora perguntou se era válido colocar coisas da Ilíada, por exemplo, num filme baseado no Senhor dos Anéis. E depois perguntou sobre colocar coisas do Senhor dos Anéis em um filme baseado na Ilíada. E as pessoas só falaram sobre a primeira pergunta, e na hora eu fiquei com a impressão de que elas não diferenciam uma coisa da outra.

Na minha opinião (e é pra isso que esse blog serve) não é a mesma coisa você criar uma história, hoje, coletando as coisas dos mitos que já existem há muitos anos, e que fundaram mesmo e serviram de base para literatura mundial, e você pegar um desses mitos, se basear nele pra fazer um filme, e encher de porcaria que tem nada a ver. Uma coisa é você fazer uma historinha recente, usando os mitos gregos, e colocar a “sede” do Olimpo no Empire State Building (eu acho isso uma coisa terrível e tenho vontade de chorar, mas tá), outra é fazer um filme baseado no mito de Perseu e socar lá o Kraken.

E então surgem as questões tipo “e a liberdade do diretor”, “a função do cinema não é educar”, “mas a intenção era fazer uma ficção, e não um documentário”, “o tempo do filme não é o tempo da obra nem do autor” etc. Okay, eu entendo essas questões, e tenho pensado nelas. Sei que quando muda a mídia, são válidas certas alterações. E tem também a questão de que em cada época o público “demanda” certas coisas, o que justificaria que se colocasse mais ação, mais romance, mais etc. Mas o que sempre me vem é que pro diretor, ou qualquer responsável pelo filme, fica só a liberdade de fazer o que quiser, e nenhuma obrigação de ter critério, consciência.

Tá, muito legal que alguém tenha feito um filme sobre o Perseu, porque, de qualquer jeito, é uma maneira de passar o mito, sendo o cinema o grande meio de recepção em massa de narrativas. O problema é que normalmente (arrisco até um sempre) é de qualquer jeito. Tá, pode ter quem goste do filme e pesquise mais a respeito, mas com certeza vai ter aquele que não vai pesquisar (por não poder ou não querer), vai acreditar que o mito é aquele lá do filme, e vai ter como cena preferida a hora em que o Poseidon vai lá, libera o Kraken e manda ele destruir alguma cidade. Ou vai acreditar que Júlio Cesar citava Horácio (como está em um filme).

O que quero dizer é: fazer um Senhor dos Anéis com elementos da Ilíada, ou de qualquer outro mito, é natural (pelo que já falei: os mitos estão aí, fundaram e serviram de base para a literatura etc.). Fazer uma Ilíada – algo que não só é mais antigo, como é um dos poemas épicos mais antigos de que se tem conhecimento, é a partir dele que o conceito de épico é pensado – com elementos do Senhor dos Anéis, não. Imagina, você tá lá vendo um filme baseado na Ilíada, e num momento da batalha aparecem orcs pra ajudar os gregos. Seria ridículo!

Pode não existir um assim (ainda), mas muitos (todos?) não fogem tanto assim disso. Ah, mas o diretor tem liberdade não é um documentário tem que agradar as pessoas da época do filme é o que elas querem ver tá lá que é baseado e não que ia retratar fielmente.

Não! Para com isso! Para de achar que tá tudo certo porque é outra mídia, ou sei lá o que. Para de ficar procurando justificativa pra o que é só ruim e mal feito. Para de tentar justificar ignorância, falta de noção, de critério.

Nam, mas é só pra ser comercial, pra ganhar dinheiro.

Tá. Mas não finge que se baseou em alguma coisa, então. Falar que é clássico, de certo modo, legitima as coisas. Como que dá um ar de importância. O maior exemplo é um que chama Helena sim, mas de Troia, que é nem Helena nem de Troia, é só um filme pornô. Isso não é clássico, isso é nada! E é tudo assim, parece que usam o clássico como uma desculpa pra fazer algum tipo de filme. E resulta em nada. Resulta em um filme ruim, anacrônico, que mostra falta de conhecimento e de pesquisa de história e cultura; que caga em várias coisas ao mesmo tempo.

Se quer se apropriar, ok. Faz sua história recente e infanto-juvenil com os mitos gregos, faz contos incluindo, discretamente ou não, os mitos (tem muitos que são bem bons!), faz seus poemas com personagens clássicos, faz seu filme de piratas coletando várias coisas de mitologias diferentes, faz sua adaptação de Medeia, mesmo que seja a gota d’água. Tem nada de errado nisso.

Faz também seu filme tosco sobre a guerra de Troia, seu filme sobre Calígula só pra escandalizar (o que acho é: ele podia ser violento e dado a orgias, mas tem maneiras bem mais sutis de mostrar isso. O que fizeram era só pra escandalizar, e pra mim isso é só ridículo), seu filme vergonhoso sobre o mito de Perseu. Só assume que é apropriação, e que não tem qualquer preocupação com o mito. Assume que é uma adaptação livre e sem noção de qualquer coisa. Não de um mito específico, mas de qualquer coisa.

Tá bem. Sou suspeita pra falar desse assunto, porque todas essas mudanças me incomodam muito. Pode ser um discurso meio (muito) apaixonado, mas pra mim esses mitos são tão completos, tem tanto de todas as coisas, que não tem motivo pra mudar tudo (e, como é o comum, fazer umas coisas meio idiotas). Eles sobreviveram até hoje como são. Mesmo quando não é mito, quando é algo da história mesmo. Já sei, já sei, não é documentário, é ficção, mas para mim tem quer alguma responsabilidade com o que vai ser passado. E ponto.

Destruição de Ílio

1

E a isso seguem os dois livros da Destruição de Ilío, de Arctino de Mileto, que contém isto. Como os troianos tinham suspeitas sobre o cavalo, ficaram em volta deliberando o que se devia fazer. E por um lado uns pensaram em jogá-lo de um precipício, já outros, em queimar; e outros explicaram que deviam consagrar a Atena. Por fim venceu essa proposta. E voltaram para a alegria e celebraram como se terminada a guerra. Mas nisso duas serpentes apareceram e destruíram Laocoonte e uma de suas duas crianças; e por causa desse sinal se agitaram os seguidores de Eneias, que foram secretamente para o Ida. E Sinão levantou o sinal de fogo para os Aqueus, primeiramente tendo entrado dissimulado na cidade. E os que navegaram para Tenedo, e os do cavalo de madeira, caíram sobre os inimigos, e tendo matado muitos, pela força tomaram a cidade. E Neoptólemo executou Príamo, o qual no altar do Zeus Herceio[1] se refugiara. Já Menelau, descobrindo Helena, a fez descer para sua nau, de Deífobo sendo assassino; Ájax Oileu com violência tentou arrancar Cassandra da estátua de Atena; tendo se irritado com isso, os Helenos decidiram apedrejar o Ájax, e ele se refugiou atrás do altar de Atena e se salvou do perigo iminente. Depois de incediada a cidade, Políxena foi imolada na sepultura de Aquiles. E Odisseu matou Astíanax; Neoptólemo tomou Andrômaca por prêmio. E os espólios restantes foram distribuídos. Demofonte e também Acamante, tendo achado Etra, levaram-na entre eles. Depois os Helenos afastaram-se pelo mar, e sua ruína no alto-mar Atena maquinava.

2

Dionysius Halicarn. Rom. Antiq. i. 68. Também Arctino diz que um paládio foi dado por Zeus para Dárdano, e isso estava em Ílio até que a cidade foi tomada, em um esconderijo inacessível, e uma cópia dela foi feita, de tal modo que em nada era diferente da original, artifício para os que conspiravam contra, colocado em lugar visível; e os Acaios, conspirando, roubaram-na.

3

Schol. on Eur. Andromache 10. E o poeta cíclico que compôs a Destruição [historia], também, que a partir das muralhas foi lançado (sc. Astíanax).

4

Schol. on Eur. Troades 31. Pois nenhum butim para os seguidores de Acamante e de Demofonte, mas apenas Etra, por quem, de fato, foram para Ílio, com Menesteu liderando. Mas Lisímaco diz que o que produziu a Destruição escreveu isto:

E aos filhos de Teseu deu presentes o chefe Agamêmnon
e também a Menesteu corajoso, pastor de guerreiros.

5

Eustathius on Iliad xiii. 515. E alguns falam que nem sobre todos os médicos este elogio é comum, mas sobre o Macáon, o qual operou sozinho, alguns dizem; pois Podalírio tratava de doença… isso parece pensar também Arctino, na Destruição de Ílio, na qual diz:

pois o própio pai, o célebre Enosigeu, dotou
a ambos, e colocou em um mais vantagem do que no outro:
para um mãos mais leves deu, para remover dardos
da carne, e cortar e curar todas feridas,
e no o outro, então,  tudo o que é exato no peito colocou
e as coisas invisíveis reconhecer e do incurável tratar;
ele que, então, de Ájax primeiro reconheceu, estando encolerizado,
os olhos flamejantes  e o pensamento grave.

6

Diomedes in Gramm. Lat. i. 477. O Jambo (?)  atravessando um pouco com um pé antecipado para que os membros distendendo se agitem com força e tenham uma forma mais firme.

ps – Sem texto grego, para que ninguém veja os erros.
O 6 nunca faz sentido (pra mim,pelo menos), independente da língua.

 

 

 [1] “Protetor da casa”.

Cassandra

Contexto: Cassandra está em frente ao palácio de Agamêmnon e, meio que em transe, prediz sua morte e a de Agamêmnon e a vingança por parte de Orestes.

Aiai, quanto fogo! E avança para mim!
Oh, Apolo Lício, oh eu, eu…
Esta leoa de dois pés, que se deita
com um lobo na ausência do nobre leão,
me matará! Infeliz! E como que prepara
um veneno – e dará minha paga–, com rancor
roga, e afia a espada para o fulgurante
e para minha vinda punir com a morte.
Por que, então,  me faço risível assim
ainda com cetro e colar de profeta no pescoço?
A ti, então, antes de mim, farei em pedaços!
Que se danem! E cai! Assim retribuo.
Uma outra, no meu lugar, recheiem de loucura!
Mas eis que Apolo mesmo me desnuda
das vestes proféticas, e me vigia
até nestes enfeites. Grande alvo de escárnio
de amigos e inimigos, não incerto, em vão –
e chamada de louca mendiga
pobre miserável morta de fome enfurecida –
e agora o vate que me fez vate
me arrastou para este fado mortal.
Mas, em vez do altar do pai, um cepo espera,
no quente e sangrento abate sacrificial.
Mas não sem honra pelos deuses morreremos,
pois chegará ainda um nosso outro carrasco,
o filho matricida, vingador do pai.
E o exilado errante, banido desta terra,
volta, e remata essa ruína por seus amados.
Pois foi jurada pelos deuses grande jura:
a prece de um pai morto o guiará.
Por que, então, eu, aqui plangente, gemo?
Então primeiro vi a cidade de Ílio
acabar como acabou, e os que tomaram a cidade
assim terminaram por juízo dos deuses.
Estou acabada: suporto o morrer.
Mas chamo a estas de portas do Hades,
e suplico uma ferida mortal encontrar,
e assim, sem espasmos, sangro… em morte rápida
esvaindo, eu cerro o olhar.

(ÉSQUILO. Agamêmnon, 1256-1294)

Dos nomes

Na verdade, antes de começar a mexer com a tradução dos nomes próprios, nunca tinha parado pra reparar muito nisso. Sabia de algumas equivalências do inglês (por causa de Harry Potter, principalmente), via, no grego, que alguns eram traduzidos de maneiras diferentes, mas nunca parei pra pensar em qual seria o motivo disso. Essas diferenças me incomodaram pela primeira vez quando estava fazendo a primeira monografia, porque altas vezes os tradutores me boicotaram quando procurava um personagem num certo trecho da Ilíada, e achava algum com o nome parecido, ou nem tanto, no lugar da pessoa que estava procurando. Então decidi usar todas as grafias de um só tradutor, e de nenhum outro lugar (no caso, do Carlos Alberto Nunes), mas quis pesquisar sobre isso.

Ficava pensando se não ia ser um estudo meio bobo, pq como seria? Não sabia se tinha umas regras, se era só transliteração simples, e aí eu ia fazer um trabalho todo só sobre como passar as letras do grego para o português; sabia nada de verdade. Mas tem umas normas, e elas são bem detalhadas até. Levam em conta declinação, gênero, acentuação e, claro, as letras – e ditongos e hiatos e grupos consonânticos e o que mais puder.

A primeira coisa que fiz, já com as normas de tradução em mãos, foi ver como deveria traduzir os nomes terminados em -ων (-ōn) – tipo Ἀγαμέμνων, Agamémnōn ou Ποσειδῶν, Poseidō̂n –, a segunda foi quase entrar em colapso pq devia traduzir como Agamenão ou Posidão, a terceira foi pensar se alguém perceberia se eu ignorasse essa regra, e a quarta foi ficar muito feliz por ver que tinha lido errado, e o ideal é traduzir como Agamêmnon e Posídon. Não gosto de Posídon, na verdade, e sempre pronuncio Possídon, e as pessoas perguntam “ah, fica com ss?” e eu tenho que responder que não, e que, apesar de todo o estudo que fiz, opto por falar errado. Mas queria mesmo que fosse Posseidon. Uma coisa esquisita que o Carlos Alberto Nunes (e depois o Haroldo de Campos) fez com esses nomes foi mudar o final. Tipo Agamêmnon ficou Agamêmnone, Gorgítion ficou Gorgitíono, Cóon, Coonte. Vai ver tem algum motivo, mas não sei ainda.

Uma coisa que às vezes acontece também é o tradutor traduzir o nome de acordo com o caso em que ele aparece no verso (principalmente os nomes que aparecem uma vez só), em vez de pegar do nominativo. Por exemplo  Ὦρος, Ȭros (Oro), que (de novo) o Carlos Alberto Nunes e o Haroldo de Campos traduziram por Oronte, provavelmente pq ele aparece no acusativo, Ὦρόν (Ȭrón). Agora, até entendo que o tradutor tenha que mudar um pouco o nome  pra manter ritmo ou métrica e tals, mas assim, umas coisas como Φέρουσα, Phérousa (Ferusa), vir como Transferusa eu sei não.

Outra coisa que no início me deixou meio atrapalhada também foi isso de a galera traduzir alguns nomes do latim, por convenção. Tipo Ἀπόλλων, Apóllōn, que, se traduzisse do grego e seguindo as normas, seria Apolão ou Apólon, mas normalmente traduzem por Apolo, pq no latim é Apollo; ou Ἑκάβη, Hekábē, que chegaria como Hécabe, mas usam a forma latina Hecuba, então vem como Hécuba. Ah, e tem os nomes que a galera não traduz a partir da forma que está na Ilíada (que é chamada jônica ou épica), tipo o Posídon (de novo), que na Ilíada é Ποσειδάων, Poseidáōn, aí, pior que Posídon, Posseidon ou Posidão, seria Posidáon; ou Βορέης, Boréēs, épico de Βορέας, Boréas, que seria Bórees, e não Bóreas. Tem uns nomes que alguns tradutores usam uma forma, outros a outra, tipo Βιήνωρ (Biḗnōr), forma épica de Βιάνωρ (Biánōr) que uns usam Bienor, e outros Bianor, mas por um lado acho isso muito mimimi. Tem uns nomes que ficam estranhos mesmo (repito: Posidáon), mas ah. Agora, odeio, o-d-e-i-o, quando traduzem os nomes de um deus pelo “correspondente” latino (não só pq a literatura é grega, e não latina, mas também pq mei que não era bem uma correspondência).

A tradução dos nomes próprios segue, primeiro, duas regras básicas: uma com relação aos espíritos rude e doce e a outra com relação à acentuação. O espírito rude ( ῾ ) indica que a vogal é aspirada, e é representado por um h nos nomes que começam com vogal ou ditongo que levam esse sinal. Por exemplo Ἑρμῆς, Hermēs, que se traduz Hermes. O espírito doce ( ᾿ ) não é representado no latim e no português; em grego indica que a vogal não é aspirada. Então Ἀγήνορ, Agénor, será traduzido como Agenor. Agora, a acentuação é um dos principais problemas: “regra geral e tradicional é a de supor sempre, real ou teoricamente, os nomes recebidos por mediação do latim e aplicar-lhes a regra da acentuação latina.”[1] Como no latim “a natureza longa ou breve da penúltima sílaba que indicava a sua tonicidade”,[2] se a penúltima sílaba do nome em grego é longa, em português ele será paroxítono (Καλήτωρ, Kalétōr, fica Calétor), se é breve, em português será proparoxítono (Ὺπείροχος, Hipírokhos, fica Hipíroco). Quando o nome é dissílabo, o acento será na primeira sílaba (Θέστωρ, Théstōr, será Téstor), e monossílabos serão oxítonos (Αἴας, Aías, virá como Ájax).

É de boa saber se a sílaba é longa ou breve quando ela tem ε, η, ο, ω, mas as vogais α, ι, υ podem ser longas ou breves, e nem sempre isso fica claro. O nome Ἄξυλος (Áxylos), por exemplo, que tem um υ na penúltima sílaba: se a vogal for breve, será Áxilo, e Axilo se for longa. Mei que a maioria dos nomes caía nesse problema, e eu fiquei completamente sem saber o que fazer, pensando se tinha uma maneira de diferenciar isso, e se algum professor já tinha falado isso em alguma aula e eu não tinha prestado atenção. E fiquei lá, tentando adivinhar uma lógica, acertando alguns nomes sem querer e errando altos. Depois de sofrer muito, engoli a vergonha (e o medo de sair fazendo perguntas estúpidas) e perguntei para o Olimar sobre isso, e ele disse que pra saber a duração dessas vogais, tinha que, ou escandir os versos, ou olhar no dicionário (o meu não tinha isso, mas outros indicam a duração). Escandir seria bem doido, se eu tivesse dez anos pra fazer isso, aí é óbvio que o escolhido foi o dicionário (e a ajuda do Olimar).

Ah, e é claro que tem algumas exceções. Por exemplo, a acentuação muda quando o nome termina em –ωρ, ορος (-ōr, ōros), tipo Ἀγαπήνωρ, Agapḗnōr, que seria Agapénor, mas é Agapenor; ou Ἀλάστωρ, Alástōr, que seria Alástor, e é Alastor; tem também os nomes que podem não ser traduzidos do nominativo, mas também do genitivo, tipo os que terminam em em -ας, -αντος, como Λαοδάμας, Laodámas, que tanto pode ser Laódamas quanto Laodamante, ou Ἀκάμας, Akámas, que pode vir como Ácamas ou Acamante.

Tem umas coisas que eu meio que “ignorei”, pq não tinha explicação e quase ninguém usava. Por exemplo, uma das regras diz que o hiato ηι (ēi) pode ser mantido, tipo Δηΐφοβος, Dēphobos, Deífobo, ou o ι virava consoante antes de vogal, e Δηΐοχος, ḯokhos, seria Déjoco. Só que não diz nada de quando e pq isso pode acontecer.

No final, a impressão que me deu foi a de que algumas regras parecem só meio arbitrárias. Os livros que usei falam algumas vezes de exceções por causa do uso, mas altas mudanças não são aceitas, sem explicações pra isso, e algumas são mais usadas do que a própria regra. Daí penso que talvez, mais importante do que só ditar uma maneira de traduzir, seja entender e discutir o pq de a tradução ser feita assim. Até pq, se pararmos pra pensar, a primeira tradução impressa da Ilíada é 1488, e a primeira tradução para a língua portuguesa é de 1518, então dá pra ver que já tem um tempo considerável que a Ilíada é traduzida, e antes de alguém estabelecer regras de tradução.

Agora, vamos combinar: traduzir Ate (Ἄτη, Átē) por Obnubilação é ruim demais.

[1] PRIETO; TORRES; ABRANCHES. Do grego e do latim ao portugês p. 11.

[2] BIDERMAN. Teoria lingüística: lingüística quantitativa e computacional, p. 107.