Um dia estava conversando com umas amigas, e uma delas, que sempre se entendeu feminista (e durante a adolescência era até um pouco radical), disse que, como eu, ela tem zero paciência para o feminismo de hoje, para o que o movimento virou.

Claro que isso não quer dizer que nós defendemos o machismo. A gente sabe que é necessário um movimento pela mulher, de luta pelos direitos. Não achamos justo, por exemplo, que mulheres normalmente tenham um salário mais baixo do que homens, mesmo quando desempenham as mesmas funções, não defendemos estuprador e nem acreditamos que uma mulher “mereça” ser estuprada por usar certo tipo de roupa ou se comportar de uma maneira pouco “recatada”. Sabemos que a sociedade em que vivemos é machista, que tem vários problemas e injustiças, e tentamos, do nosso jeito, lutar contra isso. O que acontece comigo, e tenho a impressão de que com ela também, é que não queremos ser vinculadas ao movimento feminista de hoje.

Mas não acredito que sejamos as únicas que pensamos assim. Claro que alguns discursos são realmente imbecis; não são de alguém que não quer ser visto como feminista por causa da cara que o feminismo tem hoje, mas de quem é só ignorante por escolha (porque condições para resolver isso tem, mas optou pela ignorância). Por exemplo: um dia vi pelo facebook uma menina que tinha compartilhado um vídeo do Kim Kataguiri (bem-feito para mim, que ainda leio o que escreve quem compartilha vídeo dessa coisa) que dizia que na verdade mulheres não recebem menos do que homens. E ela concordava com ele, porque ela não recebe menos e é valorizada no trabalho (e assim a gente descobre que uma pessoa é que faz a maioria, e não… hm… a maioria?). Mas isso não era o pior. O pior era ela dizer que não precisava do feminismo porque ela sempre optou por estudar e se esforçar, mostrando que é boa no que faz, enquanto as mulheres que recebem menos e são pouco valorizadas não dão o melhor de si no trabalho, e depois se fazem de vítimas, dizem que é machismo, sempre se apoiando no feminismo para isso.

Pena. Mal sabe ela que meio que tudo o que ela tem ela deve ao feminismo. Poder estudar, trabalhar, e inclusive opinar. Será que ela valoriza o voto dela? Porque assim, é por causa do feminismo que ela pode votar. Tudo o que ela pode fazer que não seja costurar, casar, ter filhos e cuidar da casa, do marido e dos filhos ela deve ao feminismo, que lutou para que as mulheres tivessem direitos, para que elas fossem consideradas pessoas e fossem tratadas como.

Mas existem também muitas mulheres que hoje se colocam contra o feminismo, apesar de saberem da importância dele, porque não concordam com o que ele virou. Porque o que para elas era para ser um movimento de igualdade entre os sexos, virou um movimento sexista, que defende a supremacia de um sexo e tem meio que um discurso de ódio mesmo sobre o outro. Que é excludente. Que não aceita generalizações babacas sobre um sexo, mas adora fazer sobre o outro, e acha que está certo. Que acha que um sexo é incriticável e que qualquer crítica negativa feita é sexista, mesmo quando claramente não é. E eu aqui estou falando do feminismo, mas poderia bem estar falando do machismo, porque o feminismo agora virou sim o oposto do machismo. Ele perdeu as medidas. Já vi gente falando que um professor era machista porque fez muitas críticas negativas ao trabalho de uma aluna; a pessoa saiu por aí falando que ele só fez isso porque era o trabalho de uma mulher. Não pode ser porque o trabalho tinha problemas, não, a única explicação é esse professor é machista (o que ele realmente não é!). E aí as pessoas falam “ah, já imaginou que mundo maravilhoso aquele em que uma mulher fala para um homem ‘isso foi machista’ e ele pede desculpas”. Uai, isso seria sim um mundo maravilhoso sim, mas nesse mundo maravilhoso as mulheres param para pensar o que é machismo e o que não é, porque isso já não acontece. Agora, certamente é lindo esse mundo em que elas falam “todo homem é um estuprador em potencial” (o que é uma babaquice).

Só que aí, quando mulheres falam que não são feministas porque não odeiam homens, ou porque acreditam na igualdade dos sexos, as mesmas pessoas que disseminam esse discurso sexista, de ódio, falam que não, que isso não é feminismo, não é ódio aos homens, não é supremacia de um sexo, é inclusão e igualdade. Ou seja: injetam no feminismo elementos que não são dele (ou que são só de alguma vertente), mas quando uma mulher diz que não é feminista justamente por causa desses elementos, dizem que isso não é feminismo. E culpam a sociedade por essa mulher não querer se vincular ao feminismo, culpam a criação, culpam tudo, menos a si mesmas.

Claro que em muitos casos isso vem mesmo da sociedade, que é sim machista, mas essa é uma justificativa para quem nunca concordou com o feminismo ou nunca soube o que era. A culpa de certas mulheres deixarem de se identificar com o feminismo – ou seja, elas acreditavam naquilo, mas deixaram de concordar com o que ele diz e acredita, ou melhor, com o que ele passou a dizer – e justificarem isso dizendo que é porque acreditam na igualdade entre os sexos não é culpa da sociedade, é culpa das próprias feministas. Essas mulheres não são machistas, mas não concordam com um movimento que defende que todo homem é, por definição, ruim, e que toda mulher é, também por definição, boa. Não acham que quando um homem cuzão faz alguma coisa imbecil é “homem fazendo homice”, mas sim um babaca fazendo babaquice, assim como não gostariam que dissessem que se uma mulher cuzona faz uma imbecilidade é “mulher fazendo mulherzice”.

No fim, o que acontece é que quem não concorda com esse movimento feminista de hoje acaba ou simplesmente deixando de se dizer feminista – porque acha mais fácil do que ter que ficar explicando que é feminista, mas não de acordo com o que o movimento é hoje –, ou toma uma birra tão grande do feminismo que às vezes nem pára mesmo para pensar se alguma situação é ou não de machismo, só assume que não é e que o feminismo é só “mimimi” e vitimismo. E para mim, pelo menos, isso é grave. É mais grave do que o feminismo (o “real”, por assim dizer) não ter alcançado algumas mulheres, porque como as coisas estão, ele não só não está atraindo mais pessoas, mas está afastando as que um dia concordaram com ele.

Tenho certeza de que vai ter gente que, depois de ler esse texto, vai fazer questão de entender que eu estou dizendo que machismo não existe, mas, mesmo que seja inútil deixar isso (mais) claro (porque se a pessoa quer entender assim, ela vai), ressalto que não é o que estou dizendo. Já disse que sei que a sociedade é muito machista, sei que o feminismo é necessário e até pouco tempo me dizia feminista, mas não acho que o feminismo de hoje seja o certo, não acho que as coisas com ele andem na direção certa.

Minha mãe sempre cita, quando conversamos sobre isso (ou sobre política), o “dividir para reinar”. Esse movimento precisa voltar a ser de união – com todos os sexos. Facebook não é cérebro, então parem de usar como se fosse. As pessoas precisam urgentemente voltar a pensar, a ponderar as situações, e parar de repetir feito papagaio o que os outros dizem. Porque todo esse radicalismo (assim como todo tipo de radicalismo) não é bom, não traz bons resultados e não traz união.

Bom. Eu comecei, tem um tempo, a fazer um texto falando meio que sobre a loucura das pessoas, principalmente quando se trata de religião (mas era mesmo sobre as coisas daqui, tipo bancada-que-não-deveria-existir-evangélica e etc.), mas aí teve o problema em Paris e eu achei meio estranho postar.

Este vai começar com o mesmo comentário que ia fazer no outro: não costumo falar de coisas mais “polêmicas” e etc., mas tem hora… só espero que dessa vez não aconteça alguma coisa ruim meio relacionada com o que vou escrever.

Antes de tudo vou deixar claro que não quero que fique parecendo que eu acho mudanças sempre, ou por definição, ruins ou coisa assim. Nem que estou dizendo que todas as feministas são assim, ou que as mulheres não devem denunciar assédio e violência. Claro que devem! Não estou justificando quem pratica algum tipo de violência contra a mulher, porque é inaceitável. Mas estou criticando, sim, o movimento feminista que eu tenho visto.

Durante uma época da minha vida (não muito distante) eu me dizia feminista. E eu dizia isso porque acredito que tem que existir igualdade entre os sexos. Porque acho que as mulheres devem ter os mesmos direitos que os homens. Porque vejo que algumas coisas mudam, melhoram, mas muitas coisas ficam lá, do mesmo jeito ou piores, e estão erradas. Porque tem muita coisa tão injusta que dá até um desespero, raiva. E gente que faz umas coisas com as mulheres, e fala coisas sobre elas, que só não dá pra acreditar, e aí a gente pensa que não, que tem que ter como resolver, que essa pessoa não pode fazer isso e ficar de boa, que muito tem que mudar!

E aí algumas coisas mudaram. Nem todas pra melhor, infelizmente. E entre essas que pioraram está o feminismo. Eu não reconheço ele mais. Não sei mais o que é isso. Pra mim, não se chama mais feminismo, é uma completa loucura.

Antes, injusta e imbecilmente, sexistas falavam que “ai, para as feministas tudo é machismo”. E aí parece que em vez de provar que não, que não é assim, o que elas começaram a fazer? Falar que tudo, mas tudo é machismo. Se são criticadas ou questionadas, por exemplo, falam “será que fariam isso se fosse um homem?”, quando claramente sim, fariam!

E agora essa invenção de que “homem não pode ser feminista”. UAI! De onde isso saiu? CLARO QUE PODE! Se um homem se diz feminista, ele não está dizendo que é mulher nem nada como isso. Ele está dizendo que acredita nos propósitos do movimento, que concorda, que acha que tem sim que haver igualdade, que acha que as mulheres não são tratadas como devem, e, o que é mais importante, que está vendo que existe um problema e tomou um lado, que é o das mulheres. E talvez ele esteja dizendo, inclusive, que se e quando precisar ele não vai ficar sentado olhando, mas vai querer fazer alguma coisa para ajudar e apoiar.  O que já é bem mais do que algumas “feministas” fazem.

Pra mim é a coisa mais curiosa: por anos pessoas lutaram por união.  Lutaram para fazer com que todas as pessoas fossem vistas do mesmo modo, que tivessem o mesmo tratamento, sem distinções idiotas. Sem distinção de cor, sexo, sexualidade, etc. E então isso começa a acontecer. As pessoas começam a se sensibilizar mais pela causa das outras, começam a prestar atenção e a querer participar. Começam a ver que está errado, que é injusto, e querem falar, e querem defender, além da “própria” causa, a do “outro”, como se todas as causas fossem de todos – que é como deveria ser. Mas aí algumas pessoas se fecham em grupos, começam a achar ruim, falam “se você não é assim, você não pode defender essa causa”, e aí, pra fechar com chave de ouro, vi gente dizendo que, se quem é A vier falar sobre a causa de quem é B, é “protagonismo”. Quer dizer, não tem união, e as pessoas, na verdade, não querem que tenha. Você tem que respeitar cada pessoa (bom, isso é óbvio), mas não se intrometer na luta dela.  Apoia, mas calado, ok?!

Sabe, o nome disso é retrocesso.

E aí começa essa coisa de hashtag, que poderia ser legal, se fosse bem diferente de como é. Claro que tem que denunciar. Claro que tem que reclamar, e exigir que possa se vestir como quiser, sair a hora que quiser, com quem quiser, sem se preocupar com o que vai ouvir na rua e, pior, com o que pode acontecer.

As mulheres usam pra falar de coisas ruins que homens fizeram, mas quem tenta falar “olha, não é só homem que faz babaquice não” escuta que okay, mas a ideia é denunciar coisas que eles fazem, e não elas, e escuta que não existe ódio contra homem. Olha, existe. Claro que não se compara ao ódio contra a mulher, mas existe. E sabe o que você está fazendo quando diz que não importa o ódio contra o homem, e que não importa o que mulheres fazem de ruim? Sendo sexista. Sabe o que você está fazendo quando coloca os homens todos dentro de um saco e diz que são todos iguais? isso mesmo, sendo sexista. Você não está dizendo que homens e mulheres devem ser igualmente respeitados e valorizados; você está colocando a mulher acima do homem. E isso é sexismo.

E aí as mesmas pessoas que dizem essas coisas falam depois que o feminismo quer a igualdade entre os sexos. Mas então que é que está acontecendo? A pessoa sabe disso e se diz feminista. Ela não percebe o que está fazendo? Ou nesse “novo feminismo” só se quer igualdade quando convém?

Me parece, pelo que tenho visto (assim como tudo nesse texto) que essa “igualdade” consiste em separar homens e mulheres. Não em dizer que são diferentes, mas em separar. Em dizer que são os homens, e só eles, que fazem coisas erradas, em colocar essas coisas acima das que as mulheres fazem, como se elas fossem piores porque homens que fizeram. Em não dar tanta importância quando algo de ruim acontece com um homem, afinal com as mulheres acontecem coisas muito piores. Isso, aliás, é bem babaca. É como quando você fala “olha, isso aconteceu comigo, e foi ruim”, e o outro responde “nossa, comigo aconteceu bem pior”. Sabe, não é uma competição. Não deveria ser, pelo menos.

E me intriga que, com tanta propaganda machista, realmente machista, de eletrodoméstico e de produto de limpeza, com mulher dizendo que a vida acontece na cozinha, que o cloro da marca tal é mais do que um cloro, é “o cloro dos seus sonhos”, que coloca sempre a mulher esfregando o banheiro, lavando roupa, cozinhando, que sugere que nas datas comemorativas você compre geladeiras, fogões e panelas para a sua mãe, a preocupação das pessoas seja com homem que se diz feminista (como se isso fosse uma coisa ruim) e seja denunciar coisas ruins que homens fazem de um jeito que finge que mulher não faz coisa errada (sabe, você pode fingir que não vê, mas as coisas não vão sumir por isso).

E aí vi muitxs dessxs pessxxs qux xscrxvxm txdx cxm x prx txdx lxdx prx ficxr xnfxrnxlmxntx xlxgxvxl (entre outras coisas), principalmente mulheres, achando ótimo que alguns homens tenham ficado ofendidos porque na propaganda da Bombril (sério que alguém se prestou a isso?) foram chamados de “devagar”. Sabe, acho que quem gostou disso devia ter prestado mais atenção no comercial. Porque, segundo ele, “toda mulher é uma diva” porque além de trabalhar, limpa a casa. E é por isso que produto de limpeza serve é pra ela. Olha, eu prefiro sinceramente ser chamada de devagar do que ter que escutar alguém dizendo que eu brilho feito Bombril, ou pior, por causa dele.

No início do texto eu disse que me dizia feminista até pouco tempo. E é isso, dizia, não digo mais. Porque não me reconheço nesse feminismo tão sexista, tão excludente. E não quero me reconhecer nele. Não quero dizer que faço parte desse movimento.

Ontem minha mãe disse que não é feminista, porque ela não acredita na supremacia de um sexo. Minha primeira reação foi falar “mas feminismo não é isso!”, mas ela sabe perfeitamente que isso não era feminismo, mas que foi isso o que ele virou.

Então eu faço coro com ela. Se esse movimento “roubou” o nome feminismo, eu não sou feminista.

Mas então como chama hoje quem acredita nesse feminismo “de antes”?

Quando falamos de livros, normalmente ficamos mais no texto, na tradução etc., e aí alguns aspectos ficam meio de lado. Às vezes não nos lembramos de que, numa publicação, todos os responsáveis pelo material que cerca o texto têm grande participação, e podem ajudar a causar tanto um interesse pelo livro quanto uma certa antipatia.

[O] […] texto raramente se apresenta em estado nu, sem o reforço e o acompanhamento de certo número de produções, verbais ou não, como um nome de autor, um título, um prefácio, ilustrações, que nunca sabemos se devemos ou não considerar parte dele, mas que em todo o caso o cercam e prolongam, exatamente para apresentá-lo, no sentido habitual do verbo, mas também em seu sentido mais forte: para torná-lo presente, para garantir sua presença no mundo, sua “recepção” e seu consumo, sob a forma, pelo menos hoje, de um livro.[1]

Aí tem umas coisas que fazem com que a gente fique lá, encarando o livro, e pensado o que raios passou na cabeça de uma pessoa pra fazer aquilo; como ela achou que podia ser uma boa ideia. Umas coisas que acho que acabam mais espantando o leitor do que atraindo.

Por exemplo: cai na mão de um uma tradução da Odisseia a ser publicada. Aí ele fala “uau, deixarei esse livro lindo, vou colocar nisso toda a minha inteligência e bom gosto! Vou colocar uma linda fonte dourada na folha branca!” Aí sai aquele lindo livro ilegível. Aliás, quem tem esse livro diz que depois de um tempo dá dor de cabeça, por ter que ficar forçando a vista pra conseguir ler.

Qual é o propósito disso? Qual o propósito de fazer um livro bonito, mas ilegível? Sinceramente, olho esse livro e penso que se ele foi feito para não ser lido, pra que eu vou discutir? Melhor procurar uma tradução legível e, se sobrar dinheiro, compro essa para enfeitar a sala.

Outro. Alguém quer ler uma tradução da Ilíada. Entre as opções vê uma com mais de novecentas páginas. Mas gente, as outras são bem menores… as desse tradutor, então, são menores ainda, como esta é tão grande?, a pessoa pensa. Aí abre o livro e descobre que tem muitas notas. Muitas. Aliás, tem pelo menos uma nota para cada verso. Na verdade na maioria das vezes tem mais de uma nota para cada verso. E então a pessoa descobre que, apesar de o responsável pelas notas (que também é responsável pelo prefácio) dizer que o tradutor foi injustiçado pelos críticos, ele achou que era uma boa ideia colocar mais texto explicando o poema do que o tradutor colocou de texto. Então, se tem uns 13.116 versos, deve ter bem umas quarenta mil notas. Aí ele pensa se é mesmo uma boa ideia levar essa tradução, né… deve ter uma que não precise de tantas explicações… ou talvez seja uma ideia melhor ler esse outro livro aqui… e pronto, volta com essa Ilíada para a prateleira.

Mas se ele tivesse dado uma olhada nas notas e na tradução, passado o susto, teria visto que grande parte das explicações é inútil. Que tá, a linguagem é meio difícil, mas que quem fez as notas achou que tinha que explicar o que significa de heróis (“de guerreiros notáveis”) pasto (“alimento, repasto”), tinha que refazer o verso “nunca a libertarei, té que envelheça” (“enquanto for jovem e bonita, ficará comigo”), informar o que é treme (“tirita de pavor”). E isso só nos primeiros trinta versos. Não consigo entender como isso pode ter parecido uma boa ideia.

Tem uma edição de uma tradução da Ilíada tão, mas tão zoada, que não sei como saiu. Primeiro que resolveram escrever o título original, e escreveram errado. Aí o editor achou que era uma boa colocar notas explicativas, e, além de fazer notas idiotas, porque explicam coisas que o próprio texto explica umas ou duas linhas abaixo (ou pior: acima), ele desistiu no meio do caminho. Aliás, no meio não, bem antes: ele fez quatro notas, três delas estão na primeira página e a última está na última página do segundo canto. E acabou.

Aí tem também um parágrafo sobre a tradução, no final, dizendo que “foram suprimidas não somente as passagens que os estudiosos consideram meras interpolações, como também as obscuras, acerca de cuja exata significação os próprios eruditos discutem, e cuja reprodução de modo algum se justificaria”, mas o responsável por esse texto – que não está assinado – não se dignou a dizer que partes são essas e nem quem são esses estudiosos e nem o que eles falaram. Tá lá assim. Uma coisa meio acredite se quiser.

Tem também aqueles problemas mais comuns, mas que na hora a gente acaba relevando, como quando a fonte é pequena demais, ou quando o livro tem umas ilustrações feias, ou uns desenhinhos sem sentido e sem fonte. E é um saco quando você tá lá lendo e tem que abrir tanto o livro pra conseguir ler o que tá no canto, porque não tem margem, que acha que o livro vai rasgar. E muitas vezes ele rasga mesmo, as folhas começam a soltar. Ou então aquela coisa maravilhosa de nada fazer sentido quando você vira a página, e então você descobre que tem uma parte do texto que não tá lá, falta uma página inteira no seu livro (tá, isso é problema da gráfica, mas então podia procurar uma melhorzinha, porque né). Ou quando você tá lendo alguma coisa que tem versos numerados, mas a entrelinha é tão, mas tão pequena, que tem hora que não dá pra saber em que verso exatamente está o número. Fica aquela margem de erro de dois pra cima ou pra baixo. Mas esse tipo de coisa, quando vemos, normalmente pensamos “ah, se é o que tem…”

O ponto é que acho que as pessoas poderiam pensar direito na hora de fazer o livro. Não pode ser só “vou fazer um livro bonito”, ou “vou fazer um livro pequeno, de bolso”, sem pensar que um livro é para ser lido, e que, então, ele deve ser feito de um jeito que isso seja possível. Tá, tem gente que compra de verdade livro para enfeitar a sala, mas penso (ou espero) que não é uma maioria, e acho que isso não deve ser levado em conta na construção do livro. Se um livro é difícil de ler (não digo o texto difícil, e sim o livro em si, como objeto), se ele é difícil de manejar, perde a função e o propósito. Principalmente porque a leitura fica bem menos prazerosa.

[1] GENETTE. Paratextos editoriais, p. 19.

Ultimamente, por causa de uma matéria que estou fazendo, tenho pensado mais nessa questão dos clássicos no cinema. Mas só pensado mesmo, porque ainda não li coisas a respeito e tals, então esse texto é só sobre o que penso das coisas que vejo e ouço. Talvez ainda mude completamente de opinião, depois de ler algumas coisas, ou não.

Mas esse texto é mesmo sobre coisas que ouvi na última aula dessa disciplina: falando sobre apropriações e etc., a professora perguntou se era válido colocar coisas da Ilíada, por exemplo, num filme baseado no Senhor dos Anéis. E depois perguntou sobre colocar coisas do Senhor dos Anéis em um filme baseado na Ilíada. E as pessoas só falaram sobre a primeira pergunta, e na hora eu fiquei com a impressão de que elas não diferenciam uma coisa da outra.

Na minha opinião (e é pra isso que esse blog serve) não é a mesma coisa você criar uma história, hoje, coletando as coisas dos mitos que já existem há muitos anos, e que fundaram mesmo e serviram de base para literatura mundial, e você pegar um desses mitos, se basear nele pra fazer um filme, e encher de porcaria que tem nada a ver. Uma coisa é você fazer uma historinha recente, usando os mitos gregos, e colocar a “sede” do Olimpo no Empire State Building (eu acho isso uma coisa terrível e tenho vontade de chorar, mas tá), outra é fazer um filme baseado no mito de Perseu e socar lá o Kraken.

E então surgem as questões tipo “e a liberdade do diretor”, “a função do cinema não é educar”, “mas a intenção era fazer uma ficção, e não um documentário”, “o tempo do filme não é o tempo da obra nem do autor” etc. Okay, eu entendo essas questões, e tenho pensado nelas. Sei que quando muda a mídia, são válidas certas alterações. E tem também a questão de que em cada época o público “demanda” certas coisas, o que justificaria que se colocasse mais ação, mais romance, mais etc. Mas o que sempre me vem é que pro diretor, ou qualquer responsável pelo filme, fica só a liberdade de fazer o que quiser, e nenhuma obrigação de ter critério, consciência.

Tá, muito legal que alguém tenha feito um filme sobre o Perseu, porque, de qualquer jeito, é uma maneira de passar o mito, sendo o cinema o grande meio de recepção em massa de narrativas. O problema é que normalmente (arrisco até um sempre) é de qualquer jeito. Tá, pode ter quem goste do filme e pesquise mais a respeito, mas com certeza vai ter aquele que não vai pesquisar (por não poder ou não querer), vai acreditar que o mito é aquele lá do filme, e vai ter como cena preferida a hora em que o Poseidon vai lá, libera o Kraken e manda ele destruir alguma cidade. Ou vai acreditar que Júlio Cesar citava Horácio (como está em um filme).

O que quero dizer é: fazer um Senhor dos Anéis com elementos da Ilíada, ou de qualquer outro mito, é natural (pelo que já falei: os mitos estão aí, fundaram e serviram de base para a literatura etc.). Fazer uma Ilíada – algo que não só é mais antigo, como é um dos poemas épicos mais antigos de que se tem conhecimento, é a partir dele que o conceito de épico é pensado – com elementos do Senhor dos Anéis, não. Imagina, você tá lá vendo um filme baseado na Ilíada, e num momento da batalha aparecem orcs pra ajudar os gregos. Seria ridículo!

Pode não existir um assim (ainda), mas muitos (todos?) não fogem tanto assim disso. Ah, mas o diretor tem liberdade não é um documentário tem que agradar as pessoas da época do filme é o que elas querem ver tá lá que é baseado e não que ia retratar fielmente.

Não! Para com isso! Para de achar que tá tudo certo porque é outra mídia, ou sei lá o que. Para de ficar procurando justificativa pra o que é só ruim e mal feito. Para de tentar justificar ignorância, falta de noção, de critério.

Nam, mas é só pra ser comercial, pra ganhar dinheiro.

Tá. Mas não finge que se baseou em alguma coisa, então. Falar que é clássico, de certo modo, legitima as coisas. Como que dá um ar de importância. O maior exemplo é um que chama Helena sim, mas de Troia, que é nem Helena nem de Troia, é só um filme pornô. Isso não é clássico, isso é nada! E é tudo assim, parece que usam o clássico como uma desculpa pra fazer algum tipo de filme. E resulta em nada. Resulta em um filme ruim, anacrônico, que mostra falta de conhecimento e de pesquisa de história e cultura; que caga em várias coisas ao mesmo tempo.

Se quer se apropriar, ok. Faz sua história recente e infanto-juvenil com os mitos gregos, faz contos incluindo, discretamente ou não, os mitos (tem muitos que são bem bons!), faz seus poemas com personagens clássicos, faz seu filme de piratas coletando várias coisas de mitologias diferentes, faz sua adaptação de Medeia, mesmo que seja a gota d’água. Tem nada de errado nisso.

Faz também seu filme tosco sobre a guerra de Troia, seu filme sobre Calígula só pra escandalizar (o que acho é: ele podia ser violento e dado a orgias, mas tem maneiras bem mais sutis de mostrar isso. O que fizeram era só pra escandalizar, e pra mim isso é só ridículo), seu filme vergonhoso sobre o mito de Perseu. Só assume que é apropriação, e que não tem qualquer preocupação com o mito. Assume que é uma adaptação livre e sem noção de qualquer coisa. Não de um mito específico, mas de qualquer coisa.

Tá bem. Sou suspeita pra falar desse assunto, porque todas essas mudanças me incomodam muito. Pode ser um discurso meio (muito) apaixonado, mas pra mim esses mitos são tão completos, tem tanto de todas as coisas, que não tem motivo pra mudar tudo (e, como é o comum, fazer umas coisas meio idiotas). Eles sobreviveram até hoje como são. Mesmo quando não é mito, quando é algo da história mesmo. Já sei, já sei, não é documentário, é ficção, mas para mim tem quer alguma responsabilidade com o que vai ser passado. E ponto.

Destruição de Ílio

1

E a isso seguem os dois livros da Destruição de Ilío, de Arctino de Mileto, que contém isto. Como os troianos tinham suspeitas sobre o cavalo, ficaram em volta deliberando o que se devia fazer. E por um lado uns pensaram em jogá-lo de um precipício, já outros, em queimar; e outros explicaram que deviam consagrar a Atena. Por fim venceu essa proposta. E voltaram para a alegria e celebraram como se terminada a guerra. Mas nisso duas serpentes apareceram e destruíram Laocoonte e uma de suas duas crianças; e por causa desse sinal se agitaram os seguidores de Eneias, que foram secretamente para o Ida. E Sinão levantou o sinal de fogo para os Aqueus, primeiramente tendo entrado dissimulado na cidade. E os que navegaram para Tenedo, e os do cavalo de madeira, caíram sobre os inimigos, e tendo matado muitos, pela força tomaram a cidade. E Neoptólemo executou Príamo, o qual no altar do Zeus Herceio[1] se refugiara. Já Menelau, descobrindo Helena, a fez descer para sua nau, de Deífobo sendo assassino; Ájax Oileu com violência tentou arrancar Cassandra da estátua de Atena; tendo se irritado com isso, os Helenos decidiram apedrejar o Ájax, e ele se refugiou atrás do altar de Atena e se salvou do perigo iminente. Depois de incediada a cidade, Políxena foi imolada na sepultura de Aquiles. E Odisseu matou Astíanax; Neoptólemo tomou Andrômaca por prêmio. E os espólios restantes foram distribuídos. Demofonte e também Acamante, tendo achado Etra, levaram-na entre eles. Depois os Helenos afastaram-se pelo mar, e sua ruína no alto-mar Atena maquinava.

2

Dionysius Halicarn. Rom. Antiq. i. 68. Também Arctino diz que um paládio foi dado por Zeus para Dárdano, e isso estava em Ílio até que a cidade foi tomada, em um esconderijo inacessível, e uma cópia dela foi feita, de tal modo que em nada era diferente da original, artifício para os que conspiravam contra, colocado em lugar visível; e os Acaios, conspirando, roubaram-na.

3

Schol. on Eur. Andromache 10. E o poeta cíclico que compôs a Destruição [historia], também, que a partir das muralhas foi lançado (sc. Astíanax).

4

Schol. on Eur. Troades 31. Pois nenhum butim para os seguidores de Acamante e de Demofonte, mas apenas Etra, por quem, de fato, foram para Ílio, com Menesteu liderando. Mas Lisímaco diz que o que produziu a Destruição escreveu isto:

E aos filhos de Teseu deu presentes o chefe Agamêmnon
e também a Menesteu corajoso, pastor de guerreiros.

5

Eustathius on Iliad xiii. 515. E alguns falam que nem sobre todos os médicos este elogio é comum, mas sobre o Macáon, o qual operou sozinho, alguns dizem; pois Podalírio tratava de doença… isso parece pensar também Arctino, na Destruição de Ílio, na qual diz:

pois o própio pai, o célebre Enosigeu, dotou
a ambos, e colocou em um mais vantagem do que no outro:
para um mãos mais leves deu, para remover dardos
da carne, e cortar e curar todas feridas,
e no o outro, então,  tudo o que é exato no peito colocou
e as coisas invisíveis reconhecer e do incurável tratar;
ele que, então, de Ájax primeiro reconheceu, estando encolerizado,
os olhos flamejantes  e o pensamento grave.

6

Diomedes in Gramm. Lat. i. 477. O Jambo (?)  atravessando um pouco com um pé antecipado para que os membros distendendo se agitem com força e tenham uma forma mais firme.

ps – Sem texto grego, para que ninguém veja os erros.
O 6 nunca faz sentido (pra mim,pelo menos), independente da língua.

 

 

 [1] “Protetor da casa”.

Cassandra

Contexto: Cassandra está em frente ao palácio de Agamêmnon e, meio que em transe, prediz sua morte e a de Agamêmnon e a vingança por parte de Orestes.

Aiai, quanto fogo! E avança para mim!
Oh, Apolo Lício, oh eu, eu…
Esta leoa de dois pés, que se deita
com um lobo na ausência do nobre leão,
me matará! Infeliz! E como que prepara
um veneno – e dará minha paga–, com rancor
roga, e afia a espada para o fulgurante
e para minha vinda punir com a morte.
Por que, então,  me faço risível assim
ainda com cetro e colar de profeta no pescoço?
A ti, então, antes de mim, farei em pedaços!
Que se danem! E cai! Assim retribuo.
Uma outra, no meu lugar, recheiem de loucura!
Mas eis que Apolo mesmo me desnuda
das vestes proféticas, e me vigia
até nestes enfeites. Grande alvo de escárnio
de amigos e inimigos, não incerto, em vão –
e chamada de louca mendiga
pobre miserável morta de fome enfurecida –
e agora o vate que me fez vate
me arrastou para este fado mortal.
Mas, em vez do altar do pai, um cepo espera,
no quente e sangrento abate sacrificial.
Mas não sem honra pelos deuses morreremos,
pois chegará ainda um nosso outro carrasco,
o filho matricida, vingador do pai.
E o exilado errante, banido desta terra,
volta, e remata essa ruína por seus amados.
Pois foi jurada pelos deuses grande jura:
a prece de um pai morto o guiará.
Por que, então, eu, aqui plangente, gemo?
Então primeiro vi a cidade de Ílio
acabar como acabou, e os que tomaram a cidade
assim terminaram por juízo dos deuses.
Estou acabada: suporto o morrer.
Mas chamo a estas de portas do Hades,
e suplico uma ferida mortal encontrar,
e assim, sem espasmos, sangro… em morte rápida
esvaindo, eu cerro o olhar.

(ÉSQUILO. Agamêmnon, 1256-1294)

Dos nomes

Na verdade, antes de começar a mexer com a tradução dos nomes próprios, nunca tinha parado pra reparar muito nisso. Sabia de algumas equivalências do inglês (por causa de Harry Potter, principalmente), via, no grego, que alguns eram traduzidos de maneiras diferentes, mas nunca parei pra pensar em qual seria o motivo disso. Essas diferenças me incomodaram pela primeira vez quando estava fazendo a primeira monografia, porque altas vezes os tradutores me boicotaram quando procurava um personagem num certo trecho da Ilíada, e achava algum com o nome parecido, ou nem tanto, no lugar da pessoa que estava procurando. Então decidi usar todas as grafias de um só tradutor, e de nenhum outro lugar (no caso, do Carlos Alberto Nunes), mas quis pesquisar sobre isso.

Ficava pensando se não ia ser um estudo meio bobo, pq como seria? Não sabia se tinha umas regras, se era só transliteração simples, e aí eu ia fazer um trabalho todo só sobre como passar as letras do grego para o português; sabia nada de verdade. Mas tem umas normas, e elas são bem detalhadas até. Levam em conta declinação, gênero, acentuação e, claro, as letras – e ditongos e hiatos e grupos consonânticos e o que mais puder.

A primeira coisa que fiz, já com as normas de tradução em mãos, foi ver como deveria traduzir os nomes terminados em -ων (-ōn) – tipo Ἀγαμέμνων, Agamémnōn ou Ποσειδῶν, Poseidō̂n –, a segunda foi quase entrar em colapso pq devia traduzir como Agamenão ou Posidão, a terceira foi pensar se alguém perceberia se eu ignorasse essa regra, e a quarta foi ficar muito feliz por ver que tinha lido errado, e o ideal é traduzir como Agamêmnon e Posídon. Não gosto de Posídon, na verdade, e sempre pronuncio Possídon, e as pessoas perguntam “ah, fica com ss?” e eu tenho que responder que não, e que, apesar de todo o estudo que fiz, opto por falar errado. Mas queria mesmo que fosse Posseidon. Uma coisa esquisita que o Carlos Alberto Nunes (e depois o Haroldo de Campos) fez com esses nomes foi mudar o final. Tipo Agamêmnon ficou Agamêmnone, Gorgítion ficou Gorgitíono, Cóon, Coonte. Vai ver tem algum motivo, mas não sei ainda.

Uma coisa que às vezes acontece também é o tradutor traduzir o nome de acordo com o caso em que ele aparece no verso (principalmente os nomes que aparecem uma vez só), em vez de pegar do nominativo. Por exemplo  Ὦρος, Ȭros (Oro), que (de novo) o Carlos Alberto Nunes e o Haroldo de Campos traduziram por Oronte, provavelmente pq ele aparece no acusativo, Ὦρόν (Ȭrón). Agora, até entendo que o tradutor tenha que mudar um pouco o nome  pra manter ritmo ou métrica e tals, mas assim, umas coisas como Φέρουσα, Phérousa (Ferusa), vir como Transferusa eu sei não.

Outra coisa que no início me deixou meio atrapalhada também foi isso de a galera traduzir alguns nomes do latim, por convenção. Tipo Ἀπόλλων, Apóllōn, que, se traduzisse do grego e seguindo as normas, seria Apolão ou Apólon, mas normalmente traduzem por Apolo, pq no latim é Apollo; ou Ἑκάβη, Hekábē, que chegaria como Hécabe, mas usam a forma latina Hecuba, então vem como Hécuba. Ah, e tem os nomes que a galera não traduz a partir da forma que está na Ilíada (que é chamada jônica ou épica), tipo o Posídon (de novo), que na Ilíada é Ποσειδάων, Poseidáōn, aí, pior que Posídon, Posseidon ou Posidão, seria Posidáon; ou Βορέης, Boréēs, épico de Βορέας, Boréas, que seria Bórees, e não Bóreas. Tem uns nomes que alguns tradutores usam uma forma, outros a outra, tipo Βιήνωρ (Biḗnōr), forma épica de Βιάνωρ (Biánōr) que uns usam Bienor, e outros Bianor, mas por um lado acho isso muito mimimi. Tem uns nomes que ficam estranhos mesmo (repito: Posidáon), mas ah. Agora, odeio, o-d-e-i-o, quando traduzem os nomes de um deus pelo “correspondente” latino (não só pq a literatura é grega, e não latina, mas também pq mei que não era bem uma correspondência).

A tradução dos nomes próprios segue, primeiro, duas regras básicas: uma com relação aos espíritos rude e doce e a outra com relação à acentuação. O espírito rude ( ῾ ) indica que a vogal é aspirada, e é representado por um h nos nomes que começam com vogal ou ditongo que levam esse sinal. Por exemplo Ἑρμῆς, Hermēs, que se traduz Hermes. O espírito doce ( ᾿ ) não é representado no latim e no português; em grego indica que a vogal não é aspirada. Então Ἀγήνορ, Agénor, será traduzido como Agenor. Agora, a acentuação é um dos principais problemas: “regra geral e tradicional é a de supor sempre, real ou teoricamente, os nomes recebidos por mediação do latim e aplicar-lhes a regra da acentuação latina.”[1] Como no latim “a natureza longa ou breve da penúltima sílaba que indicava a sua tonicidade”,[2] se a penúltima sílaba do nome em grego é longa, em português ele será paroxítono (Καλήτωρ, Kalétōr, fica Calétor), se é breve, em português será proparoxítono (Ὺπείροχος, Hipírokhos, fica Hipíroco). Quando o nome é dissílabo, o acento será na primeira sílaba (Θέστωρ, Théstōr, será Téstor), e monossílabos serão oxítonos (Αἴας, Aías, virá como Ájax).

É de boa saber se a sílaba é longa ou breve quando ela tem ε, η, ο, ω, mas as vogais α, ι, υ podem ser longas ou breves, e nem sempre isso fica claro. O nome Ἄξυλος (Áxylos), por exemplo, que tem um υ na penúltima sílaba: se a vogal for breve, será Áxilo, e Axilo se for longa. Mei que a maioria dos nomes caía nesse problema, e eu fiquei completamente sem saber o que fazer, pensando se tinha uma maneira de diferenciar isso, e se algum professor já tinha falado isso em alguma aula e eu não tinha prestado atenção. E fiquei lá, tentando adivinhar uma lógica, acertando alguns nomes sem querer e errando altos. Depois de sofrer muito, engoli a vergonha (e o medo de sair fazendo perguntas estúpidas) e perguntei para o Olimar sobre isso, e ele disse que pra saber a duração dessas vogais, tinha que, ou escandir os versos, ou olhar no dicionário (o meu não tinha isso, mas outros indicam a duração). Escandir seria bem doido, se eu tivesse dez anos pra fazer isso, aí é óbvio que o escolhido foi o dicionário (e a ajuda do Olimar).

Ah, e é claro que tem algumas exceções. Por exemplo, a acentuação muda quando o nome termina em –ωρ, ορος (-ōr, ōros), tipo Ἀγαπήνωρ, Agapḗnōr, que seria Agapénor, mas é Agapenor; ou Ἀλάστωρ, Alástōr, que seria Alástor, e é Alastor; tem também os nomes que podem não ser traduzidos do nominativo, mas também do genitivo, tipo os que terminam em em -ας, -αντος, como Λαοδάμας, Laodámas, que tanto pode ser Laódamas quanto Laodamante, ou Ἀκάμας, Akámas, que pode vir como Ácamas ou Acamante.

Tem umas coisas que eu meio que “ignorei”, pq não tinha explicação e quase ninguém usava. Por exemplo, uma das regras diz que o hiato ηι (ēi) pode ser mantido, tipo Δηΐφοβος, Dēphobos, Deífobo, ou o ι virava consoante antes de vogal, e Δηΐοχος, ḯokhos, seria Déjoco. Só que não diz nada de quando e pq isso pode acontecer.

No final, a impressão que me deu foi a de que algumas regras parecem só meio arbitrárias. Os livros que usei falam algumas vezes de exceções por causa do uso, mas altas mudanças não são aceitas, sem explicações pra isso, e algumas são mais usadas do que a própria regra. Daí penso que talvez, mais importante do que só ditar uma maneira de traduzir, seja entender e discutir o pq de a tradução ser feita assim. Até pq, se pararmos pra pensar, a primeira tradução impressa da Ilíada é 1488, e a primeira tradução para a língua portuguesa é de 1518, então dá pra ver que já tem um tempo considerável que a Ilíada é traduzida, e antes de alguém estabelecer regras de tradução.

Agora, vamos combinar: traduzir Ate (Ἄτη, Átē) por Obnubilação é ruim demais.

[1] PRIETO; TORRES; ABRANCHES. Do grego e do latim ao portugês p. 11.

[2] BIDERMAN. Teoria lingüística: lingüística quantitativa e computacional, p. 107.

Uma vez eu fiz um texto aqui falando da caracterização dos heróis da Ilíada nos filme “baseados” nela (ou em qualquer outra coisa). Mas na verdade eu meio que não consegui passar o que queria sobre isso, aí então vai esse, com mais base. Até citação vai ter.

A Ilíada é um poema de guerra, mas não é só uma galera aleatória, de uma sociedade aleatória, lutando numa história aleatória. Homero (existindo ou não) era o educador dos gregos,

Os dois poemas homéricos poderiam ser vistos como enormes repositórios da informação cultural, abrangendo costumes, leis e propriedades sociais, que também foram armazenados. […] Hoje os possuímos porque foram escritos, mas seu conteúdo é próprio de uma sociedade de cultura pré-escrita.[1]

e tem questões de moral e honra no poema.

[…] para Homero, o heroísmo é uma concreta tarefa social e os heróis constituem um determinado estrato social. Se dá esse nome aos que são, foram ou serão guerreiros. Essa é, em Homero, a classe governante, a classe proprietária e também a classe sobre a qual recai a responsabilidade de velar pela comunidade.[2]

Daí vem essa galera dizendo que vai fazer um filme baseado na Ilíada e ignora tudo, faz as coisas do jeito que bem entende, e foda-se se tem coisas sobre alguns personagens, foda-se a mitologia, o que é legal é a guerra. Tá, eu entendo que tem que mudar algumas coisas quando muda de mídia e tals, mas custa tomar algum cuidado? Pq tem umas mudanças que olha…

Dessa vez, em vez de personagens, vou por filmes; o problema – ou não – é que tem muito tempo que vi os filmes, e, graças à minha maravilhosa memória seletiva, não me lembro de muita coisa. Daí vou chamar atenção para o que lembro que me incomodou mais (mas vou falar um pouco da história também, impossível não falar).

Primeiro, Helena de Troia, de 1956. Ele sugere uma nova versão da história: Páris, que na verdade é mei cuzão, seria, na verdade, o principal herói. Tá, isso muda a história, mas ok. Tem umas outras mudanças, o motivo de tirarem a Briseida do Aquiles, e outras situações são bem diferentes também, mas tá, tá, não vou implicar (não aqui). Aí vem Aquiles, que é um príncipe arrogante. Ok, ele é arrogante na Ilíada, até pq ele sabe que é o melhor guerreiro, mas pelo menos não fala de si na terceira pessoa, como o desse filme. O físico dele é o oposto de tudo o que diz na Ilíada, mas tá. Aí chega o Heitor, que seria o principal herói de Tróia, mas já que nesse filme o foda é o Páris, não podia ser o Heitor, que acabou sendo um troglodita que só gosta de lutar. Já falei no outro texto, aliás, que tem uma cena linda, em que o Príamo fala para o Heitor: “você gosta de lutar, né, Heitor”, e ele responde, sorrindo, “ahãaa” e baba (aposto que baba). E então tem o melhor personagem desse filme: Odisseu. Alguém deve ter lido que ele era astuto, então o cara passa o filme TODO fazendo cara de astuto. Quando ele aparece, falta só aparecer aquela lâmpada de “tive uma ideia” em cima da cabeça dele. Mas o que estraga a caracterização dele, é que no saque a Troia, ele fica só bebendo, gargalhando e sendo astuto. É, ele não participa, não luta, não faz nada; enquanto os outros saqueiam a cidade, ele fica lá de boa do lado dos tesouros de Troia. Enchendo a cara.

Em 2003 foi feita uma refilmagem homônima do Helena de Troia, que não seguiu mais a história do que o primeiro. Alguns papeis foram invertidos – dessa vez o príncipe arrogante é Heitor, daí ficou para Aquiles (que gosto de chamar de Aquiles Telamônio) o papel de troglodita. Ele não mata Heitor por causa de Pátroclo (que nem existe aqui, aliás), e sim pq, como ele diz “cansou de matar soldados, ele quer sangue de príncipes). Não tem nem um duelo mesmo entre ele e o Heitor. E depois ele fica arrastando o cadáver não pq tá com raiva ou algo assim, e sim pq acha divertido; a cena em que mostra ele fazendo isso, na verdade,é um espetáculo. Todos os gregos estão lá, rindo e aplaudindo. Talvez seja implicância minha (tô nem aí), mas pelo que li, o ultraje ao cadáver não era algo assim de boa. Abandonar ou maltratar o cadáver do inimigo é aceito como um impulso natural na guerra, mas só a vontade, sem fazer mesmo. O ato em si é considerado selvagem mesmo.

Se já não convém que um cadáver fique akedés, sem cuidados fúnebres, inglório, sem ser chorado e enterrado, áklautos e áthaptos, constitui motivo ainda maior de indignação e censura agredi-lo, inerte que é, e impedir esses cuidados quando se quer e quando se pode prestá-los. Essa é a situação específica do ultraje ativo, extremamente condenável, e que apenas Aquiles realiza na Ilíada, contra Heitor.[3]

Ainda nesse filme, Helena é uma marmanja que se porta feito uma criança de cinco anos, Clitemnestra é a irmã mais velha encalhada, desde criança a Cassandra é profetisa e ninguém acredita nela (só o Príamo) e o Agamêmnon é um vilão de novela da globo, não tem nada de heroico em nada que ele faz durante o filme todo, na verdade ele é só uma cara mau, mau, mau. E estupra a Helena. Ele.estupra.a.Helena. E quando faz isso, o Menelau vai tentar impedir e os outros tentam segurar ele. E depois ele fica de boa, faz nada com o irmão, que meio que pega a Helena pra “concubina”. O cara que vai pra Troia pra pegar a mulher de volta, faz nada depois que o irmão dele estupra ela. Mas a morte do Agamêmnon é que é boa: ele tá lá na banheira, em Troia ainda, e a Clitemnestra (que sabe-se-lá o que estava fazendo em Troia) entra e vê a Helena lá encolhida. Cobre a Helena com um manto, fala pra ela sair, e, depois de falar umas coisas com o Agamêmnon, joga o xale que ela estava usando em cima dele (e ele meio que cai e não consegue se mexer direito), e mata ele a facadas. Assim.

Tem também um que  chama A ira de Aquiles, de 1962, e que conseguiu manter um pouco do mito conhecido. Mas acho que o que mais estraga essa questão do heroísmo e tals é que o Pátroclo pega a armadura de Aquiles não por o Aquiles ainda se recusar a lutar, por causa do orgulho e tals, e sim pq ele bebeu tanto que desmaiou. Ah, e uma coisa ótima nesse filme é que quando eles estão saqueando uma cidade, uma mulher (Xenia?) fica fazendo caras e bocas para os guerreiros, e acho que é nessa hora que ela fala pra Briseida umas coisas tipo “hmm, olha aquele, que gatão, tomara que me pegue. Tô doida pra ser escrava”. Ou depois, quando ela já é escrava, e fica achando doido.

E, por último tem Troia, de 2004. Uma superprodução, que uma galera adorou, e foi comentada, recomendada e, infelizmente, levada a sério por muita gente. O foco, agora, é o romance entre Briseida e Aquiles, que aqui é só um guerreiro rebelde. Ele deixa de lutar quando Agamêmnon toma a Briseida pq gosta dela, na verdade, e não pq foi uma ofensa ele fazer isso. Ok, ok, talvez fosse meio polêmico falar que o problema maior foi tomar o géras o “presente” do Aquiles, mas então fica aqui, só como informação, que, tomando a Briseida, é como se Agamêmnon negasse a excelência de Aquiles no combate e seu heroísmo, e é o que irrita Aquiles. O géras é

um privilégio excepcional, uma prestação concedida a título especial, como reconhecimento de uma superioridade, seja de posição e de função – é o caso de Agamêmnon –, seja de valor e façanhha – é o caso de Aquiles. Além da vantagem material que proporciona, o géras vale como marca de prestígio, consagração e uma supremacia social.[4]

Outra coisa é que no saque a Troia, o Aquiles (que nem devia estar lá, mas já que está…) não luta, só fica correndo pela cidade atrás da Briseida.

Mas as caracterizações piores são a do Agamêmnon, que é a perfeita bruxa má de contos de fada, e o Páris, que pode ser um idiota na Ilíada, pode ser covarde (na primeira vez em que ele aparece, tá lá pagando de fodão e sai correndo e se esconde quando o Menelau vem na direção dele), mas sabe lutar, enquanto no filme é só um idiota incapaz de segurar um arco.

Tem as coisas maravilhosas da história, também, como Heitor matar o Menelau no início da Guerra, e a Briseida matar Agamêmnon no final – o que não só vai contra o mito como também acaba com as histórias posteriores, como a Electra e toda a Oresteia. Ou seja, se a intenção era ter alguma coisa a ver com Ilíada, esse filme deixou a desejar; mas se era só ser um blockbuster, o objetivo foi atingido.

Então assim, eu entendo, como já disse, que tem que mudar coisas quando se faz uma adaptação pra outra mídia, mas eu acho também que é obrigatório,em certos casos, ter algum cuidado, fazer alguma pesquisa. Nesse caso, por exemplo, a pessoa está mexendo  com cultura. Não dá pra sair fazendo qualquer coisa. Tipo, uma coisa que sempre me incomoda é que os deuses não aparecem nos filmes, ou quase não aparecem; sendo que a participação deles no poema é enorme.

Aí tem gente que diz que nam, que o objetivo do cinema não é educar, não é ensinar, que tem que ser acessível etc., ok, beleza, mas não precisa descaracterizar completamente e fazer toda essa porcaria pra ser acessível. A impressão que me dá é a de que “o espectador não deve trabalhar com a própria cabeça, o produto prescreve toda e qualquer reação […]. Toda conexão lógica que exija alento intelectual é escrupulosamente evitada”.[5] Se é pra ser um filme só de porrada e sexo, faz um Adrenalina ou Velozes e furiosos. Mas para de cagar na mitologia!

[1] HAVELOCK. A equação oralidade-cultura escrita: uma fórmula para a mente moderna, p. 30.

[2] REDFIELD. The Hero, p. 99.

[3]MALTA. A perdição de Aquiles, p. 276-277.

[4] VERNANT. A bela morte e o cadáver ultrajado, p. 34-35.

[5] ADORNO. A indústria cultural: o Iluminismo como mistificação de massas, p. 31.

Ontem um amigo meu me enviou uma postagem num blog, que era a dúvida de um cara que estava interessando em uma moça, mas ela se dizia assexuada, e dizia que depois de um tempo enjoava. Aí o cara pedia sugestões, se deveria insistir e tals, pq não conhece pessoas assim.

Aí fui ler os comentários. E sei que não devia ligar, pq é opinião de internet, e normalmente pessoas que comentam nessas coisas falam as maiores imbecilidades, mas não deu. Me incomodou. As pessoas escreviam tipo “ai, enjoa de que?” e “deve ser por causa de um trauma”, “pergunta se ela procurou um especialista”, “ela tem medo de relacionamento e foge”, e “mostra o bom da vida pra ela”.

Isso.

“Mostra o  bom da vida pra ela”

Eles não conhecem a menina. Eles sabem nada sobre ela. Eles sabem nada sobre isso. Quem é essa galera pra decidir o que é bom para a vida dela?

Não se usa o termo assexuado só pra falar de gente que não se interessa por sexo, às vezes se usa também pra se referir a gente que não se interessa por relacionamentos, que dificilmente se interessa por alguém. E enjoa sim. De ter alguém sempre por perto, se sente incomodada, às vezes tem gente que sente falta do tempo sozinha e de poder aproveitar esse tempo. E mesmo se interessando e aceitando algum tipo de relacionamento, pode preferir manter algum tipo de distância, porque tem, sim, gente que fica incomodada com muita aproximação, muito contato, muita intimidade. Não tou dizendo que vai ser sempre assim, com relação a todas as pessoas (talvez seja também), mas acontece.

E isso não é uma doença. Não é por causa de um trauma. Não é medo de relacionamento. Não adianta se intrometer na vida da pessoa só pq acha errado e resolveu que quer “curar” isso, “mostrando o bom da vida”ou dizendo que seria “uma boa experiência” pra ela, como se fosse um favor. É como a pessoa é, é o que faz bem pra ela! Alguns costumam se interessar por um tipo de gente, outros costumam se interessar por outro tipo, e outros simplesmente não costumam se interessar. O errado não é ser assim, e sim não aceitar que as pessoas são diferentes e então – como não entende – meio que pintar a pessoa como uma louca doente que precisa de tratamento. Essa que é a real doença. Não tem problema ter dúvidas sobre como lidar com isso, se não está acostumado. Mas tem problema querer responder sobre algo que não se tem ideia, e falando um tanto de asneira.

Como eu já disse em um texto anterior, tenho uma bolsa de pesquisa bem interessante. Mas, por causa do tema, acaba sendo meio tenso também.

Começou como um estudo sobre a violência sexual na mitologia grega, então tinha que procurar histórias que envolvessem isso; e ao mesmo tempo tinha que juntar notícias (atuais, evidentemente) de casos de estupro. Eu não vou falar dessas notícias, não vou falar o que me fez parar de ler todos os dias (para selecionar) e só jogar todas numa pasta e deixar pra ler tudo de uma vez, quando fosse necessário. Vou falar do que eu percebi lendo isso, e pesquisando na mitologia.

Para achar as histórias, procurei dicionários de mitologia, joguei umas coisas na internet, enfim, usei umas bases. E vi que dificilmente se falava em violência. Quase sempre as pessoas usam “relação”, “união” e tals.

Aí fui olhar as notícias. E percebi que o problema é geral. Além de muitas usarem esses mesmos termos, várias vezes no título está que a pessoa “diz ter sido estuprada”, ou “suposto estupro”, “suposta vítima”, e quando se lê a notícia tá lá que fozeram exames e foi comprovado. Às vezes, ainda, a pessoa foi pega no ato, mas tá lá que não, que é tudo “suposto”.

Algumas notícias, ainda, dizem que a pessoa foi estuprada e depois agredida.

Mas péra. Então o estupro, por si só, não é uma agressão?

A impressão que tive lendo tudo isso foi de que o assunto ainda é tratado com um certo descaso. Sim, as pessoas ficam putas, tem notícias de gente sendo linchada por ter violentado alguém, se diz que elas (literalmente) se fodem quando são presas etc. Mas a não ser que você coloque um alerta no seu email, vc vai saber de quase caso nenhum. E a não ser que você leia umas 50 notícias, vc não vai perceber que muitas vezes é retratado assim, e nem vai saber qual a faixa etária da maioria das pessoas estupradas, nem onde mais acontece e nem o que isso pode fazer com a cabeça da vítima. E não vai saber que mesmo quando a pessoa confessa ou é pega no flagra ou quando exames comprovam – ou seja, mesmo quando não há dúvidas –, pode ser que aconteça nada com ela. Pode ser que ela passe ridículos oito anos presa. Pode ser que a maior punição seja perder a aposentadoria. Teve caso de cara que foi preso por um tempinho e a primeira coisa que ele fez quando solto foi ir atrás da pessoa que ele tinha estuprado. Não sei se tou falando um tanto de bobagem, pq entendo nada de lei e etc., mas se a lei é acontecer nada com quem faz isso, ela não tá errada não? Ou só eu penso que estupro é algo grave?

Mas tou mudando a direção do texto. Enfim, o que penso é que o estupro não deveria ser tão amenizado. Fico pensando se é assim pra meio que não “assustar” as pessoas. Mas isso seria certo? Suavizar, e aí não parece tão terrível. Não tou dizendo que tem que ser escrito da maneira mais cruel possível não (se bem que…), mas acho que quando um vai relatar ou noticiar, é errado usar termos que fazem parecer que a coisa foi só tranquila e consensual. E acho errado, também, “desacreditar” tudo logo de cara. Claro que muitas notícias não são assim, mas penso que nenhuma deveria ser.

 

ps. sei que às vezes que a denúncia é falsa, sei que tem vezes em que se culpa a vítima e etc., mas não entrei nisso e nem quero. Não é o objetivo.